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A Revolução Inglesa

coletânea

 

 

TRECHO 1

"O que caracteriza a Revolução Inglesa é o conteúdo intelectual dos diversos programas e atuações da oposição depois de 1640. Pela primeira vez na história, um rei ungido foi julgado por faltar à palavra dada a seus súditos e decapitado em público, sendo seu cargo abolido. Aboliu-se a Igreja estabelecida, suas propriedades foram confiscadas e se proclamou - e inclusive se exigiu - uma tolerância religiosa bastante ampla para todas as formas do protestantismo. Por um breve espaço de tempo, e provavelmente pela primeira vez, apareceu no cenário da história um grupo de homens que falavam de liberdade, não de liberdades: de igualdade, não de privilégios; de fraternidade, não de submissão. Estas idéias haveriam de viver e reviver em outras sociedades e em outras épocas. Em 1647, o puritano John Davenport predisse com misteriosa exatidão que "a luz que acabava de ser descoberta na Inglaterra... jamais se extinguirá por completo, apesar de eu suspeitar que durante algum tempo prevalecerão idéias contrárias".

Ainda que a revolução fracassasse aparentemente, sobreviveram idéias de tolerância religiosa, limitações do poder executivo central a respeito da liberdade pessoal das classes proprietárias e uma política baseada no consentimento de um setor muito amplo da sociedade. Essas idéias reaparecerão nos escritos de John Locke e se consolidarão no sistema político dos reinados de Guilherme III e Ana, com organizações partidárias bem desenvolvidas, com a transferência de amplos poderes ao Parlamento, com um Bill of Rights e um Toleration Act, e com a existência de um eleitorado assombrosamente numeroso, ativo e articulado. É precisamente por estas razões que a crise inglesa do século XVII pode aspirar a ser a primeira "Grande Revolução" na história mundial, e portanto, um acontecimento de importância fundamental na evolução da civilização ocidental." (Stone, Lawrence. La Revolución Inglesa. In: Forster, Robert e Greene, Jack P. Revoluciones y Rebeliones de La Europa Moderna. Madri, Alianza, 1981, pp.120-1)

 

TRECHO 2

Em 1988 o historiador inglês Christopher Hill esteve no Brasil para o lançamento de seu livro O Eleito de Deus, onde analisa a vida de Oliver Cromwell. Na ocasião, concedeu uma entrevista ao historiador brasileiro Nicolau Sevcenko, publicada no jornal Folha de S. Paulo, tecendo considerações sobre a Revolução Inglesa, tema constante em sua produção historiográfica. O trecho reproduzido nos permite compreender porque Hill considera a Revolução Inglesa um evento capital da história de todo o mundo moderno. Ao relacionar os efeitos da Revolução, o autor nos chama a atenção para o caráter burguês da mesma.

 Folha: Nenhum outro historiador poderia explicar tão clara ou amplamente quanto o senhor, por que a Revolução Inglesa é um evento capital não só da história inglesa mas de todo o mundo moderno até os nossos dias. O senhor poderia nos resumir essa sua conclusão?

Hill: Se você observar a Inglaterra no século XVI, verá que é uma potência de segunda classe, levando um embaixador inglês em 1640 a dizer que seu país não gozava de qualquer consideração no mundo. O que era verdade. Mas já no começo do século XVIII a Inglaterra é a maior potência mundial. Logo, alguma coisa aconteceu no meio disso. E eu creio que o que houve no meio foi a Guerra Civil e a Revolução, que tiveram efeitos fundamentais. Primeiro de tudo, acabou de vez com a possibilidade da monarquia absolutista existir na Inglaterra. Segundo, na luta entre o Parlamento e a Coroa, o que ficou claro é que os pagadores de impostos não iriam mais admitir de forma alguma que o governo cobrasse taxas, que não fossem previamente autorizadas pelos seus representantes. Em nome dessa resistência à tirania e ao despotismo foram até a Guerra Civil e a Revolução. Com a sua vitória, enormes recursos ficaram disponíveis para que as forças parlamentares montassem uma poderosa marinha, que iria ser fundamental na promoção dos interesses ingleses por todas as partes do mundo, onde recursos pudessem ser drenados. Isso tornou possível a eliminação dos piratas e a abertura do Mediterrâneo aos mercadores ingleses, a colonização efetiva das terras do Atlântico e do Pacífico, inaugurando o imperialismo econômico inglês. Obteve inclusive o virtual monopólio do comércio de escravos, de onde, lamento dizer, retirou-se uma enorme fortuna. Houve ainda uma revolução agrícola com a abolição dos direitos feudais remanescentes sobre a posse das terras, transformando a terra numa mera mercadoria livremente comercializável. O resultado foi que, se a Inglaterra no século XVII era importadora de cereais e padecia de fome e escassez, no fim desse século já era exportadora e não havia mais fome. Tudo isso, como é óbvio, convergiu para a irrupção da Revolução Industrial no final do século seguinte. Fato que foi corroborado, não se deve esquecer, pelo clima geral de liberdade de pensamento e de estímulo oficial às atividades de livros de investigação e pesquisa, que redundaram na revolução científica, pondo a Inglaterra à frente também nesse campo. ( Folha de S. Paulo, 10/8/1988, p. E-14)

 

 

 

                 
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