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O Gigante global em crise de identidade

Gilberto Dupas

 

Com o fim da guerra fria, uma repentina sensação de "sobra de poder" e de perda de referências se apossou do gigante hegemônico norte-americano. Várias contradições coexistem na atual posição dos Estados Unidos. De um lado, trata-se da única superpotência global do planeta, em condições de conduzir e vetar qualquer ação internacional de grande porte. De outro, convive com uma cisão interna profunda dos valores que antes definiam sua identidade nacional. Gunnar Myrdal chamava de doutrina americana um conjunto de princípios dos seus primeiros líderes, como liberdade, igualdade, democracia, iniciativa privada e liberalismo. Com a onda atual predominante de doutrinas neoliberais, esses valores tendem momentaneamente a ser universais.

Em ensaio recente para a Foreign Affairs, Samuel Huntington, presidente da Harvard Academy for International Studies, diz: "Caso venha a ocorrer a vitória global da democracia, isso pode ser um acontecimento extremamente traumático e perturbador para os Estados Unidos." Há dois milênios, quando os romanos completaram a conquista do mundo conhecido, surgiu a mesma questão: já que o universo não lhes proporcionava mais nenhuma ameaça, qual seria o destino da república? O que coincide, aliás, com a percepção de um assessor de Gorbachev, no fim da guerra fria: "Estamos fazendo algo terrível a vocês, vamos privá-los do grande inimigo."

Não é à toa que, só após grandes dificuldades, a Commission on America's National Interests conseguiu identificar os cinco interesses estratégicos atuais americanos na política externa: impedir que seu território seja atacado por armas de destruição maciça; impedir o surgimento de países hegemônicos hostis; impedir o colapso dos sistemas globais de comércio e dos mercados financeiros, das reservas energéticas e do meio ambiente, e assegurar a sobrevivência dos aliados dos Estados Unidos.

Essa comissão esqueceu-se de um dos itens mais importantes, na opinião dos próprios especialistas americanos: a chamada "diplomacia comercial". É o que garante Jeffrey Carte, ex-subsecretário de Comércio Exterior e atual reitor de Yale: "Os recursos do governo estão se reduzindo, ao passo que se amplia o papel das empresas americanas como agentes de fato da política externa." Ou ainda o próprio Huntington, quando diz: "Fechar contratos é o nome do jogo atual no campo da política externa."

Em síntese, como tenho dito, na falta de países a vencer, sobram mercados a conquistar. E as políticas nacionais passam a ser marcadas principalmente pelos únicos interesses que se mantêm coerentes: a meta da expansão do market share global das corporações transnacionais do país. O que nos leva ao dilema proposto por Arthur Schlesinger Jr., historiador e ex-assistente especial de Kennedy. Ele acha que os Estados nacionais continuarão perdendo poder. Eles se tornariam pequenos demais para os grandes problemas e grandes demais para os pequenos problemas.

Mas a questão da identidade nacional norte-americana padece de outro mal: a acentuação da diversidade racial e cultural. Theodore Roosevelt advertia, há quase um século, que a única maneira absolutamente certa de levar a sua nação à ruína seria permitir que ela se tornasse um emaranhado de nacionalidades conflitantes. Pois bem, as previsões são de que, daqui a meio século, 25% dos americanos serão hispânicos, 14%, negros e 8%, asiáticos. Huntington analisa a questão com especial competência ao lembrar que, até há pouco, os imigrantes iam para os Estados Unidos para se tornar americanos. Atualmente, mudam-se para lá a fim de continuar sendo o que são. Adverte que os grupos sociais estão deixando de ser comunidades culturais no interior das fronteiras dos Estados Unidos para se constituir em "diásporas" radicadas no país, mas apoiando os interesses de sua pátria de origem. O que já valia para judeus americanos hoje é a regra para chineses americanos, armênios americanos, e assim por diante. Segundo ele, a unidade nacional está desaparecendo. Sua advertência é dramática: "Caso prevaleça o multiculturalismo e se desfaça o consenso sobre a democracia liberal, é provável que os Estados Unidos se juntem à União Soviética na lata de lixo da História."

Assim, privado de um grande inimigo e envolvido na complexa revisão de seus objetivos estratégicos, o poderoso gigante americano vive uma profunda crise de identidade. Suas corporações globais cobram a colagem dos objetivos nacionais à conquista dos mercados mundiais, indispensáveis - entre outras coisas - ao equilíbrio do déficit comercial americano. Enquanto seus cidadãos multirraciais pressionam por prioridades não nacionais.

É incontestável a supremacia dos Estados Unidos. Mas, agora que venceram a guerra, eles parecem não saber o que fazer com a vitória. O que para o resto do mundo pode ser até um grande alívio. Mas nem tudo parece perplexidade. Como lembra o próprio Huntington, em plena década de 90 "a América do Norte continua a exportar alimentos, tecnologia, ideias, cultura e força militar. No entanto, passou a importar pessoas, capital e bens, tornando-se o maior devedor do mundo. De trabalhadores agrícolas a ganhadores de Prêmios Nobel, todos querem mudar-se para os Estados Unidos. As elites de todas as partes enviam seus filhos para universidades norte-americanas. E os empresários querem ter acesso ao seu enorme mercado." A força da cultura popular americana viria, então, não da imposição, mas da sua capacidade de atração. O que teria tornado o poderio norte-americano "suave", mais de atrair que de obrigar. Tomara que assim seja e continue. Afinal, nunca se sabe o que pode surgir de um gigante em crise de identidade.

 

 

 

                 
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