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Iluminismo

 

 

 

1. OS ENCICLOPEDISTAS

No início do século XVIII, uma enciclopédia recém-lançada na Inglaterra fez grande sucesso na França. Chamava-se Enciclopédia ou Dicionário de Artes e Ciências e era de autoria de Ephraim Chambers. Em 1746, o livreiro francês Le Breton confiou a tradução da obra ao filósofo, romancista e crítico literário Denis Diderot, que se associou para isso ao matemático Jean Le Rond D'Alembert. Ambos, porém, decidiram transformar e ampliar o projeto, criando uma obra original, que contaria com a colaboração de diversos filósofos, escritores e cientistas. Desse modo nasceu a Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios, ou mias simplesmente, a Enciclopédia, que reuniu mais de 160 intelectuais para sua elaboração e alcançou um total de 28 volumes, publicados no decorrer de 21 anos, de 1751 a 1772.

Os editores e colaboradores da Enciclopédia - que passaram à História como os enciclopedistas - ficaram encarregados de áreas de sua especialidade, a fim de que os diversos temas fossem abordados com mais segurança e profundidade. Assim, a parte de filosofia foi entregue a Etiénne Condillac, Claude Adrien Helvétius, Condorcet e Holbach. As ciências ficaram a cargo de D'Alembert, Holbach e outros. Anne Robert Jacques Turgot e François Quesnay cuidaram de economia e política. A teologia foi abordada pelos abades Morellet, De Prades, Sallier e Yvon. Os responsáveis pela área de literatura foram François Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, Montesquieu (1689-1755) e Jean-François Marmontel.

Além desses, outros pensadores escreveram para a Enciclopédia: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, tratou do verbete música. A obra contou ainda com o trabalho de desenhistas, que se deslocavam até oficinas, laboratórios e academias para fazer ilustrações de máquinas, equipamentos, dados de anatomia e tudo o que pudesse ser transmitido sob a forma de imagem. Por duas vezes os enciclopedistas foram obrigados a interromper seus trabalhos devido a pressões do Governo e da Igreja, que os acusavam de subversão. De fato, suas posições chocavam-se, em muitos pontos, com a fé católica. O próprio Diderot afirmava que a "moralidade pode existir sem religião; e a religião pode coexistir, e freqüentemente coexiste, com a imoralidade".

Apesar dessas pressões, os enciclopedistas não deixaram de criticar um tipo de Estado (monarquia absoluta) que consideravam incompatível com a natureza humana. "Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do céu e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de usufruí-la, tanto quanto ele usufrui da razão", proclamavam eles. Em vários artigos pregava-se a instauração de uma monarquia limitada e de um governo representativo, advogando-se a garantia das liberdades civis, além da introdução de muitas reformas sociais. Por trás de todo esse trabalho estava a idéia de que o homem é a medida de todas as coisas, concepção resumida por Diderot num dos verbetes da Enciclopédia: "O homem é o único limite do qual se pode começar e ao qual todas as coisas tem de retornar".

  

2. DIVULGAÇÃO: A DEMOCRACIA DO SABER

Na apresentação da Enciclopédia, Diderot e D'Alembert explicam o espírito da nova ideologia: "O objetivo de uma enciclopédia é o de reunir os conhecimentos até agora esparsos e sistematizá-los para em seguida divulgá-los (...). Assim, as aquisições dos séculos passados não mais se perderão, podendo ser utilizadas no futuro a fim de que nossos netos, tornando-se mais instruídos, sejam ao mesmo tempo mais felizes".

A popularização foi, sem dúvida, um dos aspectos da nova cultura. Até aquele momento, o saber havia sido quase sempre um privilégio reservado a poucos "aristocratas da cultura". Os enciclopedistas, ao contrário, propunham um democracia do saber. Graças também ao desenvolvimento da imprensa (já se imprimiam jornais havia alguns decênios), os conhecimentos relativos a todas as "ciências, artes e profissões" começavam a ser divulgados; o povo lentamente ganhava acesso a tais informações. A divulgação do conhecimento e da cultura gerou um otimismo ilimitado, difundindo a crença de que o saber iria possibilitar a construção de um sociedade mais justa e mais próspera.

  

3. CIÊNCIA E TÉCNICA A SERVIÇO DO HOMEM

Durante séculos, a técnica, o artesanato e os trabalhos manuais foram desprezados pelas classes privilegiadas. Em alguns países da Europa chegou-se mesmo a proibir, por lei, que os nobres se dedicassem a atividades artesanais, industriais ou comerciais.

A nova cultura, porém, rejeitou essa idéia, passando a defender outras muito mais "modernas": o saber devia incluir também o conhecimento técnico; a arte de um mestre tecelão é tão importante quanto a de um filósofo. Além disso, o conhecimento tecno-científico começou a ser visto como um instrumento a serviço do homem, capaz de lhe proporcionar uma vida mais fácil e rica.

Os onze volumes de ilustrações atribuíam aos ofícios a dignidade que mereciam. "Já se escreveu muito sobre as ciências em geral", dizia Diderot, "e não se escreveu praticamente nada sobre a mecânica. Tínhamos de recorrer aos operários. E foi assim que recorremos aos mais hábeis entre eles (...) Demo-nos o trabalho de ir até seus locais de trabalho e lá indagá-los e escrever o que nos ditavam, desenvolver o que pensavam, aprender os termos técnicos específicos de suas profissões (...). O raro costume que temos de escrever e compreender explicações técnicas levou-nos a fazer uso das pranchas ilustradas..." Essas pranchas foram, se não os primeiros, pelo menos os mais famosos exemplos daquele ensino técnico que seria responsável pelo grande desenvolvimento industrial e econômico do Ocidente, a partir de meados do século XVIII.

  

4. A IDADE DA RAZÃO

Na primeira página da Enciclopédia, aparece uma figura feminina que irradia a "luz do saber", dissipando as "trevas da superstição": é a Verdade. A seu lado, de pé, duas outras figuras femininas levantam o "véu que escondia a Verdade", ou seja, o símbolo do erro e da ignorância. Uma dessas figuras é a Razão; outras cabeças são adornadas por uma chama que simboliza o fogo da inteligência. A outra figura é a Filosofia, a rainha de todas as ciências. 

Ao lado da luminosa Verdade e suas corte estão: à direita, as várias Ciências; à esquerda, as Artes. Elas são conduzidas pela Imaginação, que se prepara para coroar a Verdade com uma guirlanda de flores. Embaixo, iluminados por feixes de luz, estão os seres humanos, empunhando os instrumentos com que realizam seus trabalhos.

Essas figuras alegóricas resumem a ideologia do século XVIII: um novo mundo estava para ser construído pelo Homem. O conhecimento (feixes da Verdade e da Razão) iluminaria e esclareceria todos os problemas. Por tudo isso esse movimento foi chamado Iluminismo.

  

5. UMA DÍVIDA COM O PASSADO

As novas idéias não surgiram do nada, nem por acaso. Boa parte delas fora legada pelos grandes pensadores dos séculos XVI e XVII, que, na realidade, tinham dado os primeiros passos no sentido de "modernizar" o pensamento europeu. Um desses luminares foi René Descartes (1596-1650), cujo pensamento opunha a evidência da razão ao jugo das tradições ou da autoridade.

Outras influências importantes foram Francis Bacon (1561-1626) e John Locke (1632-1704). Partidários do Empirismo, ambos sustentavam que a experiência sensível estava na origem do pensamento, não sendo possível o aparecimento de nenhuma idéia no intelecto sem que antes houvesse surgido no campo dos sentidos. E foram as regras de investigação científica explicitadas nos trabalhos de Isaac Newton (1642-1727) que serviram de elemento de ligação entre o Empirismo (rigorosa experimentação) e o pensamento do século XVIII. Sem dúvida, havia elementos comuns nas obras de pensadores como Newton, Descartes e Locke, de um lado, e o Iluminismo, de outro. Entre eles a recusa a qualquer idéia preconcebida ou crença ditada por alguma autoridade (religiosa, política ou filosófica) e a irrestrita confiança desses "pioneiros" da modernidade na força da razão e na eficácia do método científico.

  

6. UM PROGRESSO ARRASADOR

No século XVIII a Europa era um formigueiro de idéias e inovações. O progresso atingia todos os setores: arte, ciência, técnica, pensamento. Na verdade, estava em curso uma "revolução do espírito", como dizia Voltaire. Para que essa "revolução" seja entendia, porém, é importante lembrar o entusiasmo e a extraordinária abertura de novos horizontes que o progresso suscitou.

Médicos e naturalistas puderam explicar com precisão científica muitos dos "mistérios" do corpo humano, dos organismos vegetais e dos elementos do reino mineral. Ao mesmo tempo, o francês Lavoisier (1743-1794) introduziu uma nova ciência - a química moderna - com a qual era possível explicar fenômenos obscuros, como, por exemplo, a combustão, desvendando assim segredos da composição da matéria.

No campo da física, uma nova energia tornava-se objeto de estudo: a eletricidade, força até então inexplicável. No final do século XVIII, o italiano Alessandro Volta (1745-1827) conseguiu, finalmente, produzir e controlar a energia elétrica por meio de sua famosa pilha. As inúmeras utilizações da eletricidade nos dias de hoje dão uma idéia da importância dessa invenção.

Um século antes, o físico e matemático inglês Isaac Newton havia explicado, de uma maneira ainda substancialmente válida, as leis que regem os corpos celestes e a precisão matemáticas de suas trajetória. A astronomia tornou-se uma paixão. Centenas de telescópios foram apontado para o céu; grandes matemáticos e físicos, estudiosos de óptica e de outras ciências criam novos "instrumentos" de pesquisa. Descobriram-se novos come-tas, um novo planeta (Netuno), calcularam-se os eclipses.

O mundo se dilatava. A descoberta a Austrália ampliou o mapa-múndi. A audácia do engenho humano não conhecia limites. O norte-americano Robert Fulton (1765-1815) construiu um barco que, embora sem remos ou vela, se movia mesmo contra a corrente: era um navio a vapor. Enquanto isso, os irmãos Montgolfier, com os seus balões de ar quente, alçavam-se às alturas abrindo caminho para a conquista do espaço.

Enfim, tudo parecia ser alimentado pelo movimento. Os ilusionistas nada mais fizeram senão aplicar os princípios e métodos que tinham dado tão bons resultados na ciência e na técnica a outros campos do saber: filosofia, economia, política. E foi então que, a partir dessa prodigiosa "revolução cultural", começaram a germinar as sementes de muitas outras revoluções, que alterariam definitivamente, antes do final do século XVIII, a face da Europa.

  

7. CRÍTICA: JUÍZO E ESCOLHA

A Razão iluminava o caminho... O homem devia pensar com sua própria cabeça e não mais com a do sacerdote, a do falso cientista, ou a do soberano absoluto. Estava proposta a crítica; mas o que significava essa palavra?

A crítica consiste em ter uma opinião e fazer uma escolha que decorra de uma análise racional de determinada situação. Uma escolha só será racional e justa se feita livremente, sem preconceitos ou limites de qualquer espécie. E, sobretudo, sem medo.

Assim, para criticar e escolher o seu caminho, os homens do século XVIII começaram a pensar com a própria cabeça, questionando todos os campos do saber, inclusive os mais "delicados", ou seja, a religião e a política.

  

8. CULTO A UMA NOVA DIVINDADE

Muitos iluministas investiram contra a Igreja católica, principalmente contra a sua hierarquia (padres, bispos, pontífices), bem como qualquer hierarquia de outras religiões. Como, porém, tais idéias encontravam violenta oposição, foi necessário recorrer a uma série de artimanhas para levá-las a domínio público. Uma dessas artimanhas consistia num engenhoso sistema de remissões: após ler um verbete que discorria sobre as idéias religiosas tradicionais, o leitor era remetido a um outro artigo, de natureza crítica, que demolia os argumentos expostos no primeiro.

Em sua maioria, porém, os iluministas acreditavam em Deus. Não no Deus da Bíblia, do Evangelho, do Corão ou de outro texto sagrado, mas num Deus organizador, arquiteto do Universo, certamente onipotente e muito sábio (afinal criara essa "maravilhosa máquina" que é a Natureza), mas bastante afastado da vida cotidiana dos seres humanos.

 

9. O CIVILIZADO PRINCÍPIO DA TOLERÂNCIA

Partidários do primado da razão e defensores da liberdade, era inevitável que os filósofos iluministas criticassem a inutilidade e desumanidade das guerras e dos processos por motivos religiosos, e que, paralelamente, pregassem a tolerância e o respeito pela opinião pessoas dos indivíduos. Esse princípio, já preconizado por Locke, foi também aplicado ao campo político.

Os iluministas afirmavam que cada indivíduo tem direito a uma opinião própria e a exprimi-la livremente. Voltaire eternizou uma frase que sintetiza magistralmente esse princípio. Nela, o filósofo afirma que, apesar de não concordar com as opiniões de um interlocutor, está disposto a defender até a morte seu direito de manifestá-las. Isso nada mais é que o princípio da tolerância, um dos princípios da democracia moderna, que se baseia na liberdade e respeito à opinião de cada um.

  

10. HOMENS E IDÉIAS

Adotando a Inglaterra como modelo, Charles-Louis de Secodant (Montesquieu) propôs a separação dos três poderes: ao Parlamento, eleito pelo povo, caberia a prerrogativa de fazer as leis (Poder Legislativo); ao rei ou ao Governo, o poder de executá-las (Poder Executivo); e aos magistrados e juizes, a função de julgar (Poder Judiciário). Assim divididos, os três poderes deveriam permanecer independentes, controlando-se uns aos outros, de modo a garantir liberdade e justiça para o cidadão.

Cesare Beccaria (1738-1794) notabilizou-se pelo livro Dos Delitos e das Penas, no qual, após recomendar a prevenção do crime em vez de sua repressão, condenou a pena de morte e demonstrou a desumanidade e barbárie da tortura, muito utilizada nos interrogatórios de presumíveis culpados. Segundo Beccaria, as penas deveriam ter por objetivo auxiliar o réu a compreender seu erro e ajudar a sua reintegração na sociedade. Com a publicação de seu livro, muitos países aboliram a prática da tortura e alguns até mesmo a pena de morte.

François Maria Arouet (Voltaire), após a grande batalha a favor da tolerância religiosa e política, lutou para que o objetivo dos governos fossem a liberdade e a igualdade. Em contrapartida verificou-se a reação daqueles cujos privilégios eram justamente resultado da existência da opressão e da desigualdade social, amparada pela própria leit.

Jean-Jacques Rousseau afirmava que, ao organizar a sociedade, os homens deviam ter em vista o objetivo de garantir a igualdade econômica e a liberdade, frutos da democracia. Segundo ele, o verdadeiro soberano não era o rei mas o povo como um todo, a este cabendo, portanto, o poder de promulgar leis e dirigir a coletividade.

Essas idéias revolucionárias eram consideradas monstruosas pelos déspotas da época. No entanto, antes do final do século XVIII, elas seriam colocadas em prática no bojo das transformações políticas e sociais desencadeadas com a Revolução Francesa (1789-1799).

  

11. A HERANÇA DOS ENCICLOPEDISTAS

Após a publicação desse grande marco do pensamento, outras enciclopédias de grande porte e rigor intelectual foram produzidas na Europa. Ainda em 1771, quando os últimos volumes da obra iluministas estavam sendo publicados, surgiu a Enciclopédia Britânica. Diferindo da publicação francesa, que analisava informações segundo a concepção iluminista do mundo, a Britânica - seguindo a tradição do empirismo inglês, pelo qual só a experiência sensível era digna de tornar-se objeto de estudo - procurou apenas transmitir fatos e informações, sem a preocupação explícita de inseri-los numa determinada visão de mundo. Esses dois tipos de enciclopédia - a francesa, que analisa os dados com base em padrões preestabelecidos, e a inglesa, que simplesmente os divulga, evitando opinar sobre eles - serviriam de modelo até os dias atuais.

 

 

 

 

                 
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