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TEXTOS

 

 

 

A prisão do Antigo Regime

Simon Schama

 

 

A prisão do Antigo Regime

 “[...] Quadros sobre a queda e demolição da Bastilha invariavelmente a mostram mais alta do que de fato era. A maior torre não ultrapassava uns 220 metros, porém Hubert Robert, especialista em grandiosidade de ruínas, conferiu-lhe dimensões babilônicas. Em seus quadros essas paredes tornam-se escarpas gigantescas que só podiam ser conquistadas pela coragem e pela vontade sobre-humanas do povo. (...) Por certo a Bastilha de sua pintura, com pequeninas figuras escalando as muralhas, sugere um imenso castelo gótico de escuridão e isolamento, um lugar onde homens desapareciam sem qualquer aviso e nunca voltavam a ver a luz do dia – até que os escavadores revolucionários desenterraram seus ossos.

Essa era a lenda da Bastilha. Sua realidade era bem mais prosaica. (...) Para a maioria dos prisioneiros as condições não eram tão ruim como em outras prisões (...). (Quanto a isso, comparada com o que as tiranias do século XX inventaram, a Bastilha era um paraíso). A maioria dos prisioneiros ocupava celas octogonais, com cerca de cinco metros de diâmetro. Na época de Luís XVI cada um tinha uma cama com cortinado de sarja verde, uma ou duas mesas e várias cadeiras. Todos tinham um fogão ou estufa, e em muitas celas podiam chegar à janela de barras tripas subindo uma escadinha  de três degraus junto à parede. Muitos podiam levar seus pertences e também cães e gatos para acabar com ratos e insetos (...). A comida – coisa crucial na vida dos prisioneiros – também variava de acordo com a condição social. O escritor Marmontel babava ao lembrar ‘uma sopa excelente, um suculento bife, uma coxa de frango pingando gordura [uma virtude no século XVIII], um pratinho de alcachofras fritas e marinadas ou de espinafre, deliciosas pêras de Cressane, uvas frescas, uma garrafa de velho Borgonha e o melhor café’.

Ninguém queria ir para a Bastilha. Porém, uma vez lá dentro, a vida dos privilegiados podia se tornar mais suportável. Permitiam-se álcool e tabaco e na época de Luís XVI introduziram-se jogos de cartas para detentos que partilhassem a cela e uma mesa de bilhar para uns nobres bretões que a requisitaram. Alguns hóspedes literatos até viam um certo encanto na Bastilha, pois ali se estabeleciam suas credenciais de opositores do despotismo. (...) Se a monarquia deve ser caracterizada (não de forma completamente injusta) como arbitrária, obcecada com o sigilo e investida de poderes caprichosos sobre a vida e a morte dos cidadãos, então a Bastilha simboliza à perfeição de tais defeitos. Se não existisse, pode-se dizer, seria preciso inventá-la.

            E sob certos aspectos ela foi reinventada por uma série de escritos de prisioneiros que realmente sofreram dentro de suas paredes, mas cujos relatos transcendem sua verdadeira experiência na prisão. Estes eram tão vívidos e assustadores que conseguiram criar ferrenha oposição na qual se apoiavam os críticos do regime (...). A crítica era tão poderosa que quando a fortaleza foi tomada a decepcionante realidade da liberação de apenas sete prisioneiros (dois lunáticos, quatro falsários e um aristocrata delinqüente) se viu excluída das expectativas míticas.” (Schama, Simom. Cidadãos: uma crônica da Revolução Francesa, SP, Das Letras, 1989, pp.322-325.)

O Carandiru, SP

“[...] por necessidade de proteção aos marcados para morrer, a direção foi obrigada a criar um setor especial no térreo, a ‘Masmorra’, de segurança máxima – o pior lugar da cadeia.

[...] São oito celas de um lado da galeria escura e seis do outro, úmidas e superlotadas. O número de habitantes do setor não é inferior a cinqüenta, quatro ou cinco por xadrez, sem sol, trancados o tempo todo para escapar do grito de guerra do Crime:

- Vai morrer!

Ambientes lúgubres, infestados de sarna, muquirana e baratas que sobem pelo esgoto. Durante a noite, ratos cinzentos passeiam pela galeria deserta.

A janela do xadrez é vedada por uma chapa de ferro fenestrada, que impede a entrada de luz. Por falta de ventilação, o cheiro de gente aglomerada é forte e a fumaça de cigarro espalha uma bruma fantasmagórica no interior da cela. Tomar banho exige contorcionismo circense embaixo do cano  na parede ou na torneira da pia, com uma caneca.

A Masmorra é habitada pelos que perderam a possibilidade de conviver com os companheiros. Não lhes resta outro lugar na cadeia; nem nas alas de Seguro, como o Amarelo do Cinco, por exemplo. Mofam trancados até que a burocracia do Sistema decida transferi-los para outro presídio. (Drauzio Varella, Estação Carandiru, p. 24)

 

 

                 
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