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TEXTOS

 

 

 

A escravidão antiga e moderna

coletânea

 

                           TEXTO I

“Quanto aos escravos, convém que não sejam nem covardes nem corajosos. Os que comandam, convém que saibam ler e escrever e que tenham alguma instrução, e devem ser honestos e mais velhos que os trabalhadores. Isto porque é mais fácil serem obedecidos que os mais moços. Além disso, deve-se escolher para tal função os mais experientes na agricultura, pois não apenas devem mandar, mas fazer, para que o imitem e para que percebam que, se ele comanda, é porque sabe mais. Mas não se deve permitir que comandem mais com chicotadas do que com palavras, se se pode obter o mesmo resultado. Nem se deve comprar muitos escravos da mesma origem: este é o fator principal de distúrbios entre a escravaria. Deve-se estimular os chefes com prêmios e dar um pecúlio e uma esposa, escrava como eles, para que tenham filhos. Isto os fará mais seguros e mais apegados à propriedade. (...) Para torná-los mais apegados ao trabalho, deve-se trata-los com maior liberalidade, seja na comida ou no vestuário ou dispensando-os do trabalho ou, ainda, permitindo que possuam algum gado próprio na propriedade, e com outras concessões deste tipo, de maneira que aqueles que receberam uma ordem mais árdua ou uma advertência sintam-se consolados e recuperem a boa vontade e os bons sentimentos em relação ao dono” (Varrão, Sobre a Agricultura, I a.C.)

 

                                                                                         TEXTO II

"A maioria dos escravos era conquistada, mas alguns eram homens livres vendidos como escravos para pagar suas dívidas. Com as conquistas territoriais, o escravismo romano torna-se um negócio amplo e lucrativo, diferenciando-se do escravismo grego. Em 225 a.C. havia 60 mil escravos em Roma, em 43 a.C. a cifra incrivelmente sobe para 3 milhões de escravos. Nunca na Antiguidade viu algo semelhante.

O valor de um escravo variava dependendo de suas qualidades: idade, beleza e força. O contrato de vendas padrão de um escravo romano estipulava que “não era aceito devoluções, exceto em casos de epilepsia”. Os escravos cozinhavam, cuidavam do jardim, colocavam lenhas nas fogueiras e limpavam as casas. Os escravos mais educados serviam de tutores, administravam as contas ou ajudavam e gerenciar o negócio do dono. Os escravos podiam ser comprados, vendidos ou executados, dependendo dos caprichos dos donos. Todos os escravos estavam marcados ou tinham um colar de identificação para evitar a fuga. Escravos leais eram algumas vezes premiados com a liberdade ou conseguiam comprá-la. Outros a ganhavam em combates com gladiadores ou em corridas de carruagens – se conseguissem sobreviver."

 

TEXTO III

[...] Oh se a gente preta tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e a sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro, e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre! Dizei-me: vossos pais, que nasceram nas trevas da gentilidade, e nela vivem e acabam a vida sem lume da fé, nem conhecimento de Deus, aonde vão depois da morte? Todos, como já credes e confessais, vão para o inferno, e lá estão ardendo e arderão por toda a eternidade. E que perecendo todos eles, e sendo sepultados no inferno como Coré, vós que sois seus filhos, vos salveis, e vades ao céu? Vede se é grande milagre da Providência e Misericórdia divina: Factum est grande miraculum, ut Core pereunte filii illius non perirent. [...]

Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado, Imitatoribus Christi crucifixi, porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua Paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte do dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isso se compõe a vossa imitação, que se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. [...]
E que coisa há na confusão desse mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E verdadeiramente quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes: as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas, ou ventas, por onde respiram o incêndio: os etíopes, ou ciclopes banhados em suor tão negros como robustos que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, exalando nuvens de vapores mais de calor, que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar: o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir em fim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios Dolorosos, todo esse inferno se converterá em Paraíso; o ruído em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em Anjos. [...]
Os mistérios Dolorosos (ouçam-me agora) os Dolorosos são os que vos pertencem a vós, como os Gososos aos que devendo tratar-vos como irmãos, se chamam vossos Senhores. Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces do que os de vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: Sic vos non vobis mellificatis apes. O mesmo passa nas vossas colméias. As abelhas fabricam o mel, sim; mas não para si. E posto que os que o logram é com tão diferente fortuna da vossa; se vós porém souberdes aproveitar dela, e conformá-la com o exemplo e paciência de Cristo, eu vos prometo primeiramente que esses mesmos trabalhos vos sejam muito doces, como foram ao mesmo Senhor: Dulce lignum, dulces clavos, dulcia feren pondera; e que depois (que é o que só importa) assim como agora imitando a São João, sois companheiros de Cristo nos mistérios Dolorosos de sua cruz; assim o sereis nos Gloriosos da sua Ressurreição e Ascensão. [...]Assim como Deus vos fez herdeiros de suas penas, assim o sereis também de suas glórias: com a condição porém que não só padeçais o que padeceis, senão que padeçais com o mesmo Senhor, que isso quer dizer, compatimus. Não basta só padecer com Cristo, como São João.
Oh como quisera e fora justo que também vossos senhores considerassem bem aquela consequência: Si tamen compatimur, ut et conglorificemur. Todos querem ir à glória, e ser glorificados com Cristo; mas não querem padecer, nem ter parte na cruz com Cristo. [Extraído de Padre Vieira. Sermões, Porto: Lello & Irmão, vol. IV, tomo II, p. 312.]

 

 

 

                 
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