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TEXTOS

 

 

 

As mil e uma noite

Jorge Luis Borges

 

  “(...) Quero examinar um pouco o título, que é um dos mais belos do mundo (...) Nesse título há uma beleza muito particular, talvez pelo fato de que a palavra ‘mil’ seja para nós quase sinônimo de ‘infinito’. Falar em mil noites é falar em infinitas noites – muitas e inumeráveis noites. Dizer ‘mil e uma noites’ é acrescentar uma além do infinito. Há, em inglês, uma expressão curiosa. Muitas vezes, não se diz simplesmente for ever ( ‘para sempre’ ) mas for ever and a day (‘para sempre mais um dia’) Ou seja, acrescenta-se um dia à palavra ‘sempre’. (...)

Vamos verificar a história desse livro (...). Sua origem é desconhecida. (...) As mil e uma noites (...) surgem de modo misterioso. São obra de milhares de autores, mas nenhum deles pensou que estivesse edificando um livro ilustre, um dos mais ilustres de todas as literaturas – e mais apreciado no Ocidente do que no Oriente, segundo me dizem. (...) Em que consiste e como se apresenta o Oriente nesse texto? O Oriente aí está, antes de tudo, porque ao lê-lo nos sentimos num país distante (...).

Acho, por exemplo, que o título Livro das mil e uma noites seria considerado um belo título, se inventado esta manhã. Pensaríamos então: que título lindo! E é belo não só porque é lindo mas também porque dá vontade de ler o livro.

A gente tem vontade de perder-se em As mil e uma noites, pois sabe que, se entrar nesse livro, é capaz de esquecer nosso pobre destino humano. (...) No título de As mil e uma noites existe algo muito importante: a sugestão de que se trata de um livro infinito. E ele é, virtualmente. Os árabes dizem que ninguém pode ler As mil e uma noites até o fim. Não por tédio, mas porque se sente que o livro é infinito. Tenho em casa os dezessete volumes da tradução de Burton. Sei que nunca os lerei todos mas sei também que essas noites estão sempre à minha espera. Ainda que minha vida seja infeliz, os dezessete volumes aí estarão. Aí estará essa espécie de eternidade que são As mil e uma noites do Oriente (...).

Recordemos a história do pescador e do gênio. O pescador tem quatro filhos e é pobre. Todas as manhãs ele lança sua rede a algum mar. A expressão algum mar já é em si uma expressão mágica que nos coloca dentro de um mundo de geografia indefinida. O pescador não se aproxima do mar mas de algum mar, onde lança sua rede. Certa manhã, atira e retira sua rede por três vezes; encontra um burro morto, três moringas quebradas e várias coisas inúteis. Atira a rede pela quarta vez (sempre recitando um poema) e sente-a muito pesada. Espera retirá-la cheia de peixes; ao invés, encontra apenas um jarro de cobre amarelo, marcado com o selo de Solimã (Salomão). O pescador abre o jarro, de onde sai uma fumaça espessa. Ele acha que poderá vender o jarro a algum comerciante de quinquilharias. Enquanto isso, a fumaça chega até o céu e, ao se condensar, toma a forma de um gênio. O que são tais gênios? Trata-se de seres que pertencem a uma criação pré-adamita (anterior a Adão) e inferior aos homens. Podem ser gigantescos. Segundo os muçulmanos, os gênios habitam todo o espaço e são invisíveis, intocáveis.

Então o gênio diz; ‘Louvado seja Deus e seu apóstolo Salomão’. O pescador lhe pergunta por que menciona Salomão, que morreu há tanto tempo; mesmo porque agora o apóstolo do Senhor é Maomé; e lhe pergunta também por que estava fechado dentro do jarro. O gênio conta que se rebelou contra Salomão e por isso foi trancado dentro do jarro; a seguir, Salomão selou e jogou o jarro no fundo do mar. Passaram-se quatrocentos anos. O gênio jurou que daria todo o ouro do mundo a quem o libertasse, mas isso não aconteceu. Jurou que ensinaria o canto dos pássaros a quem o libertasse. Os séculos foram passando e as promessas se multiplicando. Afinal, ele acaba jurando que matará a quem o libertar. ‘Agora preciso cumprir meu juramento. Prepare-se para morrer, ó meu salvador!’ Esse arroubo de ira torna o gênio estranham ente humano e, quem sabe, amável. Aterrorizado, o pescador finge não acreditar na história e diz: ‘O que você me contou não é verdade. Como é que você, cuja cabeça toca O céu e cujos pés tocam a terra, pôde caber neste minúsculo recipiente?’. O gênio responde: ‘Vou lhe mostrar, ó homem de pouca fé’. Então ele encolhe de novo e entra no jarro. O pescador fecha o jarro e ameaça o gênio (...).

As mil e uma noites não são uma coisa morta. Trata-se de um livro tão vasto que nem é preciso lê-lo. Ele é parte prévia de nossa memória (...)”.

BORGES, Jorge Luís. Sete noites. São Paulo: Max Limonard, 1983, pp. 71-85.

 

 

 

 

                 
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