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Cuba: história e revolução

Cláudio Barbosa Recco*



A história

Costuma-se atribuir a independência de Cuba aos EUA. Ao derrotar a Espanha, em 1898, os norte-americanos teriam garantido a liberdade à Ilha. Dessa maneira é desprezada a luta do povo cubano pela independência. Esses dois elementos devem ser considerados no processo de independência, inclusive para que possamos compreender as contradições determinantes para a revolução.

Por quatrocentos anos a ilha de Cuba foi uma colônia explorada pela Espanha, sendo que, desde o século XVIII, a produção açucareira tornou-se a base da economia, apoiada no trabalho escravo africano. No século seguinte, os EUA já eram o principal comprador do açúcar cubano e viam com bons olhos os movimentos populares que se desenvolviam contra a dominação metropolitana.

Em Cuba, o primeiro movimento significativo de independência, ocorreu entre 1868 e 1878, e ficou conhecido como "A Grande Guerra". Esse movimento foi comandado por Carlos Manuel Céspedes, que, apesar de latifundiário, havia sido educado na Europa e defendia os ideais liberais de origem iluminista. Em 10 de outubro de 1868, em seu engenho de açúcar, Céspedes levantou-se em armas contra o governo espanhol, comandando cerca de 200 homens, proclamou a independência de Cuba. Um dos primeiros atos de Céspedes ao instalar o governo independente foi declarar livres todos os escravos que se juntassem ao exército revolucionário. Essa medida fez com que seu exército chegasse a ter 12 mil homens, porém passou a sofrer a oposição dos fazendeiros conservadores, ao mesmo tempo em que a Espanha aumentava seu contingente militar na Ilha. Céspedes foi deposto em 1873, porém a resistência manteve-se até 1878, quando os espanhóis recuperaram o controle político sobre a colônia.

Durante esse mesmo período surgia um novo líder revolucionário: José Marti. Preso aos 16 anos por ter fundado o jornal La Patria Libre, foi condenado a trabalhos forçados e depois deportado para a Espanha. Viveu no México, Venezuela e Estados Unidos, onde passou a preparar a revolução em Cuba. Em 1892 fundou o Partido Revolucionário Cubano. Em 1895, Martí desembarcou em Cuba e deu início a guerra de independência, morrendo em combate ainda no primeiro mês do conflito, que se estendeu até 1898, quando a independência foi conquistada.

Ao final da guerra de independência contra a Espanha, os EUA entraram no conflito, com o pretexto de que um de seus navios ancorados em Cuba fora atacado. A vitória sobre a Espanha foi rápida, sendo que os EUA mantiveram seu aparato militar na Ilha ao mesmo tempo em que foi elaborada a Constituição do país, a qual, em 1901 foi acrescentada a Emenda Platt, que garantia o direito de intervenção dos EUA em Cuba, sempre que seus interesses estivessem ameaçados. Esse dispositivo mostra explicitamente a política imperialista norte-americana, no sentido de garantir o controle indireto sobre Cuba, no quadro da política do Big Stick, do presidente Theodore Roosevelt. Estava eliminado o intermediário espanhol e os norte-americanos passavam a ter o controle da economia cubana. Nas décadas seguintes, os investimentos norte americanos fomentaram a produção canavieira com a mecanização das fazendas, financiaram as usinas e investiram em atividades de transporte, assim como no setor de serviços. Também o turismo desenvolveu-se segundo os interesses dos EUA. Cuba seria durante muito tempo um cassino e prostíbulo controlado pela máfia norte-americana. Como aponta Emir Sader, “naqueles tempos, Cuba era o "pátio traseiro" dos EUA, o itinerário preferido das férias dos estadunidenses, de locação dos filmes melosos de Hollywood, dos cassinos onde os gângsteres do norte estabeleciam suas ramificações mais sujas.” (veja artigo na íntegra)

As primeiras décadas do século XX foram marcadas pela alternância de situações políticas democráticas e ditatoriais no país. Em 1933 um grande movimento popular colocou no poder Ramón Grau San Martí, que deu início a um amplo processo de reformas, apoiadas pelos grupos de esquerda, que procuravam atender as reivindicações das camadas mais pobres. Foi criado o ministério do trabalho e implementadas as primeiras leis trabalhistas, o ensino foi estimulado com a abertura de novas escolas, foi dado o direito de voto às mulheres e foi revogada a Emenda Platt.

O principal movimento de oposição, apoiado pelos EUA, foi encabeçado por Fulgêncio Batista, que tomou o poder em 1944 e novamente em 1952, implantando um governo ditatorial. O período ditatorial foi marcado pela subserviência aos interesses norte-americanos, por repressão e injustiça social.

Fulgêncio Batista

A Revolução

O ideal revolucionário passou a ser defendido por membros do Partido Ortodoxo, do qual fazia parte Fidel Castro. Para esse grupo, a redemocratização no país somente seria possível através da luta armada. Essas concepções fizeram com que o grupo liderado por Fidel planejasse o assalto ao Quartel de Moncada, com o intuito de obter armas, para iniciar uma revolução. O fracasso do movimento foi responsável pela prisão e posteriormente, em 1955, pelo exílio daqueles que sobreviveram. No México, os exilados contaram com a adesão de Ernesto "Che" Guevara, comunista argentino, que se integrou ao grupo para planejar a revolução em Cuba.

Apesar de contar com um pequeno grupo de homens e com poucas armas, o movimento guerrilheiro foi apoiado pela população camponesa e urbana. O grande apoio recebido pode ser explicado tanto pela situação política como econômica do país. A sociedade defendia a normalidade constitucional e a retomada da democracia, ao mesmo tempo em que a crise econômica se ampliava, pois a riqueza gerada pelo país era controlada pelas empresas norte-americanas. Essa situação fez com que se desenvolvesse uma camada urbana marcada pelo nacionalismo, que na prática, manifestava-se como um forte sentimento antiamericano e levou setores da burguesia a apoiar o movimento guerrilheiro, como forma de derrubar a ditadura e promover um projeto de desenvolvimento capitalista para o país. Formou-se a Frente Cívico Revolucionária Democrática e em 1° de janeiro de 1959 os revolucionários tomavam Havana.

 

O Poder

Com a fuga de Fulgêncio Batista, formou-se um governo provisório, encabeçado por Manuel Urritia, de caráter reformista, e que deu início a mudanças de caráter nacionalista, contrariando interesses norte-americanos, ao mesmo tempo em que realizou reformas no sistema de ensino e saúde e deu início a reforma agrária. A pressão popular fez de Fidel Castro primeiro ministro e suas mais importantes medidas foram: a abolição do latifúndio com a realização da reforma agrária e a nacionalização das empresas norte-americanas. As medidas de caráter popular e anti imperialista foram responsáveis pelo aumento da pressão dos EUA, que passaram a boicotar o açúcar cubano e em abril de 1961 patrocinaram uma tentativa de invasão da Ilha. Esse episódio, a tentativa fracassada de desembarque na "Baía do Porcos" de grupos anti-castristas, treinados e armados na Flórida; Essa pressão externa serviu para acentuar a aliança cubana com a política soviética. A URSS comprometeu-se a comprar um milhão de toneladas de açúcar por ano, além de garantir um crédito de cem milhões de dólares ao governo revolucionário.

Em 1962 Cuba foi expulsa da OEA e passou a sofrer o boicote econômico não apenas por parte dos EUA, mas dos demais países da América Latina. Nesse mesmo ano a URSS começou a instalar em solo cubano mísseis nucleares de médio alcance. O presidente Kennedy ordenou o bloqueio naval da Ilha, ameaçando invadi-la caso o procedimento soviético fosse mantido. Considera-se que a "crise dos mísseis" foi o ponto alto das tensões entre as superpotências durante a guerra fria. Se a União Soviética recuou em seus propósitos militares, os EUA recuaram na tentativa de invadir a Ilha, no entanto, mantiveram o boicote econômico como forma de desestabilizar o novo regime.

Inicialmente sem um projeto ideológico definido, o movimento revolucionário caminhou em direção ao modelo soviético de economia e organização política. Em 1965 formou-se o Partido Comunista Cubano, controlado por Fidel Castro, que passou a reprimir todos os setores que divergiram de seu comando. Do ponto de vista econômico a propriedade privada foi eliminada e desenvolveu-se a produção canavieira, que indiretamente alimentou indústria de máquinas e de bens de consumo. Destaca-se principalmente os avanços no campo da educação, com a erradicação do analfabetismo, e na saúde, com a implantação de um sistema que passou a atender a toda a população.

As relações entre EUA e Cuba

O embargo norte-americano precisa ser compreendido desde suas origens no início dos anos 1960 no contexto da Revolução Cubana. Costuma-se atribuir a decretação do embargo e sua manutenção até os dias atuais à "guerra fria". No entanto o que significa a "guerra fria"?. Durante décadas predominou a crença que dizia ser a guerra entre dois sistemas antagônicos, o capitalismo e o socialismo; o primeiro representado e defendido pelos EUA, e o segundo representado e defendido pela União Soviética. Dessa maneira, as relações internacionais estariam polarizadas, era a bipolarização. Essa visão maniqueísta da história passou a servir como justificativa para a política imperialista norte-americana. Representando a liberdade e a democracia, os EUA seriam os responsáveis por conter o avanço do "perigo vermelho". O velho discurso com uma nova roupagem. Desde o século XIX os norte-americanos desenvolveram uma política expansionista baseada na teoria do "Destino Manifesto", que considerava como dever do país, levar o progresso e o desenvolvimento à outras regiões, dizimaram milhões de indígenas e tomaram metade do território mexicano.

A ameaça soviética, segundo a Doutrina Truman, tornou-se a nova justificativa para o imperialismo norte-americano. Ao estudarmos a história de Cuba percebemos essa postura imperialista antes da Revolução e, nesse sentido, o embargo e todas as demais ações dos EUA contra Cuba foram determinadas pela política antiimperialista adotadas pelo governo revolucionário e não pela "Guerra Fria".

 No último ano do século XX, Cuba também foi notícia em outubro, quando o Senado norte-americano derrubou parte de um grande tabu: o embargo econômico a Cuba. No dia 18 de outubro de 2000 foi aprovada a exportação de alimentos e remédios à ilha de Fidel Castro. Essa medida é um importante indicador político de que o bloqueio econômico dos Estados Unidos tem os dias contados. Desde que se tornou órfã da União Soviética em 1991 com a derrocada do socialismo, Cuba amarga uma incontrolável crise econômica.

 

Cuba hoje

O que vai mudar em Cuba? Há 10 anos que esta pergunta é feita. Desde a queda do muro de Berlim (1989), marco da crise do bloco soviético, especula-se sobre a situação de Cuba. A partir das reformas implantadas por Gorbatchev na antiga URSS e principalmente após sua extinção em 1991, a situação da economia cubana passou a sentir os sinais da crise: retração da ajuda econômica, diminuição do volume comercializado com a Europa Oriental, ao mesmo tempo em que os EUA mantiveram o embargo comercial. Passou-se então a especular sobre as possibilidades do "socialismo cubano", pois para a imprensa e para os "especialistas", chegava ao fim o socialismo. Uma década depois, Cuba, China, Vietnã e outros países mantêm as mesmas formas políticas, apesar de algumas mudanças econômicas.

A crise econômica da última década vem sendo responsável por mudanças no comportamento sócio-econômico, que lentamente minam as bases políticas do regime. Parcela significativa da população vê sua condição de vida piorar a cada dia, sem condições de fazer a tradicional comparação com a situação de antes da Revolução, pois poucos conheceram a ditadura de Fulgêncio Batista e o controle do imperialismo norte-americano. As conquistas sociais, principalmente no campo da habitação e da saúde se perdem, somando isso à liberdade já há muito perdida.

O desenvolvimento do turismo criou na Ilha uma economia informal, dolarizada e que foge ao controle do governo, disseminando a idéia de que a melhora do nível de vida somente será possível por meios ilegais, que coloca em xeque inclusive a fidelidade partidária e ideológica. A prostituição volta a aumentar, assim como os índices de criminalidade.

Em janeiro de 1998, o Papa fez uma visita a Cuba. Visita histórica. Muitos acreditaram que se repetiria o processo polonês, que Fidel Castro buscava o apoio de uma liderança expressiva para iniciar internamente um processo de transição. Após a visita alguns presos políticos foram libertados e a comemoração do natal foi permitida, porém essas medidas foram superficiais e não representaram mudanças concretas: Fidel continua no poder, o único partido é o Comunista e em fevereiro último foram aprovadas ovas leis criminais, incluindo a pena de morte em caso de tráfico de drogas, mesmo com o protesto dos cardeais católicos.

Quanto aos EUA, anunciaram em janeiro de 1999 um alívio no embargo comercial à Cuba: o governo vai facilitar a aprovação do visto diplomático para cidadãos cubanos; expansão dos vôos para Cuba; permissão para que todo norte-americano envie US$ 1200 por ano a residentes em Cuba, sendo que grupos religiosos e organizações não-governamentais poderão enviar valores maiores.

Dá para perceber qual o interesse dos EUA? Ajudar os pobres cubanos ou estimular a dolarização da economia de Cuba?


(*) Adaptado a partir de dois artigos de Cláudio Barbosa Recco do site

http://www.historianet.com.br/home/

 

 

 

 

                 
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