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Por que preservar, conservar e restaurar?

Gilca Flores de Medeiros

 

 

 

A importância de conservar um objeto que consideramos parte de um patrimônio está no fato deste se constituir registro material da cultura, da expressão artística, da foram de pensar e sentir de uma comunidade em determinada época e lugar, um registro de sua história, dos saberes, das técnicas e instrumentos que utilizava.

Para termos esse registro da cultura é imprescindível a existência de um suporte material, como um objeto, uma construção ou um documento. Mesmo em relação aos bens intangíveis – como tradições orais, festas folclóricas, etc. – é necessário que sejam registrados em algum material: fotos, vídeos, cd e outros. Esses suportes, embora não sejam os bens culturais em si, guardarão seu registro e necessitarão ser igualmente preservados.

O profissional conservador/restaurador atua em três níveis: o da preservação, o da conservação e o da restauração. Somente uma ação integrada poderá oferecer resultados verdadeiros e duradouros, uma vez que de nada adianta, por exemplo, restaurar o interior de uma igreja sem que se consertem as falhas do telhado ou se realizem ações de conscientização da comunidade para reduzir o número de atos de vandalismo.

Para avaliar as condições de uma obra e atuar direta ou indiretamente, em sua preservação/conservação/ restauração, o conservador-restaurador deve ter conhecimento de diversas áreas, como História, Física, Química, Artes, Biologia e Geografia, dentre outras e, muitas vezes, trabalhará ao lado de profissionais dessas áreas, já que a interdisciplinaridade torna-se cada vez mais necessária neste campo de atuação.

 

 

Preservação, Conservação e Restauração

A Preservação engloba, de maneira mais ampla, todas as ações que beneficiam a manutenção do bem cultural. Se tomarmos como exemplo uma imagem barroca, podemos considerar ações de preservação até mesmo as leis criadas para garantir a integridade do patrimônio, os mecanismos para viabilizar a realização de projetos de restauração, o cuidado com o meio ambiente que circunda o local ou ações como o desvio do trânsito para evitar a trepidação do prédio onde a obra se encontra. Enfim, todas as ações que colaboram para garantir a integridade do bem que se deseja preservar.

A ação de Conservação, embora possa realizar-se diretamente na matéria do objeto, não se limita a ela. A conservação visa interromper os processos de deterioração, conferindo estabilidade à obra. Para esse fim, atua sobre os aspectos que cercam e influenciam a conservação do objeto, controlando os agentes que podem provocar a deterioração do bem cultural, como os biológicos (cupins, fungos, etc.), atmosféricos (temperatura e umidade), luz (natural, artificial), poluentes e o ser humano (manuseio, acondicionamento e transporte inadequados, vandalismos e roubo). Ao atuar diretamente na obra, enfocará a estabilidade da peça a ser conservada, buscando resolver seus problemas estruturais e recuperando sua integridade.

A Restauração atua sobre um objeto buscando não apenas conferir-lhe estabilidade, mas recuperar, o mais possível, as informações nele contidas. Imagine que, ao ser realizada, uma escultura possua cem por cento das informações nela contidas: sua aparência (cores, forma, textura, brilho), seus materiais constitutivos, etc. Com o passar do tempo, ou pro condições inadequadas de conservação, ou ainda, por atos de vandalismos, a obra pode ter perdido parte de sua matéria ou pintura. Neste caso, a ação de conservação buscará cessar as causas de deterioração e procurará dar estabilidade à obra, enquanto que a restauração irá mais além, buscando aproximar, o mais possível, a obra, estrutural e esteticamente, da ‘quantidade inicial de informações’.

Todo trabalho de restauração deve basear-se em referências contidas na própria obra ou, em alguns casos, em documentação segura sobre a mesma. O respeito ao original é fundamental e delineia os limites das intervenções. Algumas vezes o nível de deterioração de um bem cultural chega a um ponto tão grave, que inviabiliza sua recuperação estética, por falta de referências sobre as quais realizar o trabalho de restauração. O ideal é que todo bem cultural seja mantido em boas condições de conservação, para que não chegue a necessitar de restauração.

 

 

Nosso Patrimônio

Mas não é só o patrimônio artístico e histórico que merece cuidado. Todos nós temos à nossa volta um patrimônio que conta nossa história. Se olharmos com atenção em nossa casa, reconheceremos nosso patrimônio familiar: fotos que registram a história da família, objetos, documentos, hábitos, tradições e saberes.

Um instrumento usado por nosso avô, o diploma de nossa formatura, a foto daquele aniversário, um postal que recebemos de um amigo ou a foto de parentes que nem chegamos a conhecer, são exemplos de recordações de vida de nossa família e merecem ser preservados. Para isso, guardamos as fotos em um álbum, cuidamos de não dobrar ou amassar o diploma, limpamos periodicamente os objetos. A preservação desses objetos é a preservação da memória de nossa família e nos permitirá contá-la aos que virão.

A escola também é um patrimônio que precisa ser preservado: o prédio, as carteiras, os livros, etc. O conhecimento contido em um livro é o resultado do trabalho de muitas pessoas, que pesquisaram, desenvolveram teorias e métodos, a fim de facilitar a transmissão do conhecimento.

E quanta coisa os livros nos ensinam! Pequenos cuidados na hora de retirá-los da estante (não puxá-los pela borda superior, mas afastar os livros vizinhos, segurar o livro com firmeza e retirá-lo), ao manuseá-los (não umedecer os dedos com saliva, não rabiscar ou dobrar páginas) podem significar muito na conservação desse objeto tão precioso. Também a imagem do prédio de uma escola revela muito sobre os valores e o comportamento da comunidade na qual está inserido. O cuidado com as carteiras e salas de aulas pode refletir o grau de identificação e envolvimento dos alunos com sua escola. A mesma atenção devem receber os arquivos da escola e o material que será produzido nas atividades propostas pelo calendário.

É mais fácil compreendermos uma idéia ampla se a assimilamos em nosso cotidiano, nas pequenas coisas. A importância de se preservar o patrimônio que vemos nos museus tem o mesmo significado da preservação de nosso patrimônio familiar e comunitário, apenas com sentido mais ampliado: essas instituições guardam bens significativos para uma cidade, um país ou toda a humanidade.

 

   

 

 

                 
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