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Outra América: Apogeu, crise e decadência dos Estados Unidos.

José Arbex Jr.

 

 

 

1. O New Deal contra o Bolchevismo e a Grande Depressão

“Força, força máxima, força sem restrições ou limites”, apelava o presidente democrata Woodrow Wilson aos empresários e trabalhadores, a toda nação americana, em abril de 1917, quando os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, ao lado da Grã-Bretanha, Bélgica e França. Wilson hesitou em declarar a guerra. Unicamente os laços históricos de amizade entre Estados Unidos e Grã-Bretanha não eram razão suficiente para mobilizar a opinião pública americana. Mas os alemães tornaram-se cada vez mais agressivos. No começo de 1917, atacaram e afundaram pelo menos oito embarcações civis americanas em águas neutras. A paz tornou-se impossível.

Passando das palavras à ação, Wilson decretou várias medidas de guerra de grande envergadura: impôs normas e metas aos empresários industriais, aos operários e agricultores. Assumiu o controle das ferrovias e telégrafos. Fez uma campanha fantástica para os padrões da época, através da mídia, para estimular a produção e o engajamento do país na guerra.

Em poucos meses, os resultados começaram a aparecer, com rapidez inacreditável: a produção agrícola e a de combustível cresceram 25%, a de carvão 40%. Com empréstimos e novos impostos, o governo arrecadou 36 bilhões de dólares, dos quais emprestou uma parte aos aliados e o resto aplicou em investimentos no próprio país.

 

2. NASCE A POTÊNCIA MUNDIAL

Quando a Primeira Guerra chegou ao fim, em novembro de 1918, o país estava completamente transformado. Ampliara as bases para um tremendo surto produtivo e conquistara um lugar de potência no cenário internacional. Começava uma nova era para os Estados Unidos e para o mundo.

Wilson era favorável à formação de uma Liga das Nações para regulamentar as relações entre os Estados, mas enfrentou uma forte oposição em seu país. O Partido Republicano, em especial, argumentava que um organismo desse tipo poderia significar uma grave limitação à soberania nacional americana. O patriotismo estava muito exacerbado. Os americanos estavam orgulhosos com as conquistas industriais e tecnológicas obtidas com o esforço de guerra, e se julgavam únicos no mundo. Nesse clima de euforia patriótica, a Liga das Nações teria pouca chance de ser aprovada pelo Congresso americano.

O golpe fatal contra a formação da Liga foi desfechado em 25 de setembro de 1919, quando Wilson sofreu um ataque de paralisia do qual não mais se recuperou. Sem a sua influência, os democratas, que também estavam divididos sobre o tema, não tinham chance de passar a proposta da Liga. De fato, em março de 1920 o Senado dava um voto final contra a participação dos Estados Unidos naquele organismo. Sem a adesão da nova potência, qualquer organismo internacional seria marcado por uma debilidade congênita.

Esse fato é importante porque mostra o grau de isolacionismo que os Estados Unidos se impuseram em relação ao resto do mundo. Esse isolacionismo não se traduzia apenas em termos políticos. O Congresso aprovou também, em 1920, uma série de leis tarifárias destinadas a proteger o mercado interno. Foi levantado um verdadeiro “muro” contra a importação de artigos. Ao mesmo tempo, a Europa devia bilhões de dólares aos Estados Unidos.

Como os países europeus poderiam saldar sua dívida, se um de seus maiores mercados – o americano – estava fechado à exportação de seus produtos? De onde os europeus iriam tirar dinheiro para pagar a dívida? O isolacionismo americano criou uma espécie de camisa-de-força que limitou radicalmente o crescimento do mercado mundial. Os Estados Unidos pagariam muito caro por essa atitude, como veremos alguns parágrafos adiante.

Durante um certo tempo, nos anos 20, o clima era de absoluta prosperidade nos Estados Unidos. O governo, agora chefiado por republicanos, retirou-se totalmente da esfera econômica, e as empresas privadas, revitalizadas pelo esforço de guerra, passaram a empregar as novas tecnologias na produção de bens e mercadorias. Os bancos, estimulados pelo governo, liberavam crédito fácil para incentivar o consumo.

 

3. FRENETIC DANCING DAYS

A indústria do carro, do cinema e do rádio cresceu com velocidade vertiginosa, criando e ampliando, a cada dia, as fronteiras de um novo mundo. Em 1920, havia 9 milhões de automóveis em circulação, número multiplicado por três em 1930. No final dos anos 20, 100 milhões de americanos freqüentavam o cinema todas as semanas. O rádio tornou-se obrigatório em toda casa.

É quase impossível calcular os efeitos culturais, históricos e psicossociais que esse surto de modernidade teve na vida das pessoas. Automóvel, cinema e rádio tornaram-se os três elementos fundadores do modo de vida americano, e espalharam sua influência por todo o mundo. Quem, na Grã-Bretanha, Índia, China ou Brasil, não conhecia os ídolos da América – Charles Chaplin, Rodolfo Valentino e tantos outros? Que família não sonhava com o dia em que teria um carro em sua garagem e pelo menos um rádio na sua sala? Assim foi disseminado o sonho americano, que contaminou com suas imagens e proezas tecnológicas praticamente todas as nações da Terra.

O mundo começava a viver, pela primeira vez na História, a sensação da simultaneidade dos eventos. Algo que acontecia no local mais remoto do planeta logo repercutiria no coração das metrópoles. As artes incorporavam as informações levantadas por antropólogos e pesquisadores. Em Paris, o compositor russo Stravinski revolucionava a música com a introdução de batuques e ritmos sincopados. Outro russo, o bailarino Nijinski, escandalizava as platéias dançando a música de Stravinski com a paixão e desenvoltura de um africano, e a América se escandalizava com Isadora Duncan. O corpo humano começava a se libertar da férrea armadura criada pelo classicismo e romantismo do século XIX.

Em meados dos anos 20, a demanda de bens de consumo era, aparentemente, inesgotável nos Estados Unidos. Tudo o que se produzia era rapidamente consumido por uma multidão ávida e confiante no futuro. Os trens circulavam abarrotados de mercadorias – de carros a aspiradores de pó. Milionários e novos-ricos americanos visitavam a Europa e compravam quadros ou patrocinavam artistas – entre eles, Picasso, Max Ernst, Picabia, Salvador Dalí etc. Da Europa, importavam também formas e estilos que influenciaram a arquitetura e o design industrial. O arquiteto Frank Lloyd Wright, que se propunha a integrar edifícios e meio ambiente, revolucionou a arquitetura mundial e criou uma escola tipicamente americana. A construção civil foi renovada e trabalhava a todo vapor.

As ações das empresas americanas subiam de preço a cada dia, e os negócios nas Bolsas de Valores atingiam cifras estonteantes. Muitos ficaram ricos da noite para o dia, simplesmente porque haviam comprado o lote certo de ações. Outros empobreciam com a mesma rapidez. Mas o resultado geral é que o jogo tornava-se cada vez mais alto, como conseqüência de uma febre especulativa que, pouco a pouco, desviou crescentes somas do capital produtivo para a Bolsa.

Muitos se perguntavam por que deveriam investir na indústria, por exemplo, se ações e papéis davam um retorno muito maior e mais rápido. Multiplicaram-se as instituições financeiras por todo o país. Wall Street tornou-se a meca de um novo mundo, cujos deuses eram o individualismo, a iniciativa privada, a ousadia, a especulação.

 

4. EUROPA EM PEDAÇOS

Consolidou-se, nos anos 20, um cenário de absoluto contraste entre a prosperidade americana e o resto do mundo. A Alemanha vivia o caos da República de Weimar, a precária democracia instaurada após a derrota na Primeira Guerra. O país tentava, arduamente, recuperar-se da destruição, agravada pela perda de territórios e dinheiro, exigidos pelo humilhante Tratado de Versalhes a título de indenizações de guerra. Foi nesse clima que um obscuro pintor austríaco, de nome Adolf Hitler, conquistou adeptos para suas teorias radicais de ódio ao estrangeiro e de recuperação da economia da Alemanha mediante o expansionismo militar.

França e Grã-Bretanha, vencedoras da guerra, também tentavam reconstruir suas economias, afetadas em graus diferenciados pelo esforço bélico. Apesar de terem herdado o Oriente Médio como resultado da fragmentação do Império Otomano, suas economias e poderio bélico não seriam suficientes para preservar as colônias, perdidas após a Segunda Guerra. O Império Britânico, em particular, vivia dias melancólicos, após um glorioso apogeu no século XIX.

A Rússia, quando começava a se recuperar do dilaceramento provocado pela guerra civil (1918-21), seria novamente sacrificada pelo ditador Josef Stalin, que, em 1929, ordenou um processo de coletivização das terras. Pelo menos 13 milhões de pessoas morreram ao longo de três anos de terror e confisco impostos pelo Estado. A fome, o medo e a miséria eram tão generalizados que em algumas regiões da Rússia surgiu a prática do canibalismo.

Esse quadro de angústias e incertezas na Europa realçava, por efeito de contraste, a ilusão de que não poderia haver limites ao crescimento americano. Tudo parecia confirmar que a América estava destinada a ser, para sempre, a primeira estrela entre as nações. Os que acreditavam na mística do manifest destiny (destino manifesto) tinham razões de sobra para inflar-se de patriotismo e admirar o próprio umbigo, pouco se importando para o que acontecia no resto do mundo.

Mas, pouco a pouco, as empresas americanas começaram a produzir muito mais do que a nação poderia consumir. Além disso, a Europa começava a importar cada vez menos alimentos dos Estados Unidos à medida que deixava para trás a fase mais negra da destruição causada pela Primeira Guerra. Ao mesmo tempo, os europeus não tinham, ainda, dinheiro suficiente para tornar-se um mercado capaz de dar conta da superprodução de bens e serviços gerada na América. E, não menos importante: a política protecionista adotada por Washington no início da década provocara ressentimentos e desejo de represálias por parte dos europeus. O isolamento que a América se impôs volitava-se, agora, contra ela.

 

5. A GRANDE QUEDA

Na segunda metade dos anos 20, os preços, em especial os de alimentos e produtos agrícolas, começaram a despencar. Entre 1920 e 1932, a renda agrícola caiu de 5 bilhões para 0,5 bilhão de dólares. Mas os preços da maquinaria não caíram na mesma proporção. Resultado: comprar máquinas e fazer sua manutenção tornou-se algo cada vez mais caro para o produtor rural. Entre 1927 e 1932, pelo menos 10% das propriedades agrícolas foram levadas a leilão por famílias de pequenos produtores que não conseguiam pagar suas dívidas. Em 1930, o total de hipotecas atingia a cifra de 9 bilhões de dólares.

O fantasma da crise assombrava, finalmente, a América. Ironicamente, foi um fantasma feito de abundância, não de falta. A América pagava por seus excessos. O auge aconteceu com a grande quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 29 de outubro de 1929.

A quebra aconteceu porque havia uma diferença cada vez maior entre os preços das mercadorias e produtos comercializados no mercado, e os preços das ações das companhias e empresas produtoras. Os preços das mercadorias caíam, mas os das ações eram negociados a valores mantidos artificialmente, pelo puro jogo especulativo. Um simples boato de que tal empresa havia, por exemplo, encontrado petróleo no Texas poderia aumentar em muito o seu valor.

Mas, naquele dia fatídico, as ações das maiores empresas – American Telephone and Telegraph, General Electric e General Motors – completaram uma semana em que despencaram até duzentos pontos, isto é, seu preço foi reduzido a nada. No final de outubro, seus acionistas haviam sofrido uma perda calculada em 15 bilhões de dólares (o que equivaleria a cerca de 45 bilhões de dólares atuais, quase a metade da dívida externa brasileira).

No final de 1929, as perdas somavam cerca de 40 bilhões de dólares. Calcula-se que 5 mil estabelecimentos bancários e 32 mil casas comerciais fecharam suas portas em todo o país. Milhares de famílias perderam as economias de toda uma vida, o que incluía as casas em que viviam. Indústrias faliram aos milhares. A construção civil foi praticamente paralisada. A arrecadação de impostos pelo governo chegou a um nível tão baixo que todos os serviços públicos beiraram o colapso. O desemprego, finalmente, jogou 12 milhões de pessoas nas ruas.

O então presidente Herbert Hoover, republicano e liberal convicto, não admitia a hipótese de o Estado intervir na economia. Hoover fora eleito no final de 1928, quando a América ainda saboreava os frutos da prosperidade. Seus compromissos políticos e partidários eram com os setores mais abastados e conservadores da sociedade americana. Qualquer ação reguladora por parte do Estado soava como heresia, como restrição à capacidade de auto-regeneração do mercado, mediante a ação de indivíduos ousados e empreendedores.

Havia um fundo altamente ideológico na argumentação de Hoover e seus seguidores. A Revolução Russa, que acontecera 12 anos antes, despertara a simpatia de um certo número de intelectuais e trabalhadores americanos. Além disso, a sucessão de graves impasses econômicos na Europa e nos Estados Unidos parecia dar razão às previsões mais sinistras feitas por Vladimir Ilitch Lênin, líder da Revolução Russa, sobre o “colapso iminente do capitalismo mundial em seu último estágio, o imperialista”.

Hoover, além de acreditar sinceramente nos ideais liberais, temia que a crise desse aos reds (vermelhos, na gíria depreciativa da extrema direita de então) argumentos para recrutar mais simpatizantes e, eventualmente, realizar a revolução socialista na América. Radicalizava, por isso, nos argumentos contra qualquer proposta de ação social mais significativa para amenizar as perdas provocadas pelo colapso do sistema financeiro.

 

6. ROOSEVELT ANUNCIA O NEW DEAL

Em 1932, o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais, Franklin Delano Roosevelt, apresentou argumentos opostos aos de Hoover. Roosevelt apoiava uma forte intervenção do Estado, incluindo uma regulamentação das relações entre capital e trabalho, entre sindicatos e empresas. A plataforma de Roosevelt foi considerada “esquerdista” e “socialista” pelos republicanos e até pelos setores mais conservadores do próprio Partido Democrata.

Num país federativista, que apostava tudo nos valores individuais e na iniciativa privada, e que rejeitava até mesmo a noção de um poder central com capacidade de intervir nos Estados da federação, as idéias de Roosevelt – que refletiam uma corrente fortemente influenciada pelo economista John Maynard Keynes – soaram como uma espécie de subversão absoluta de valores consagrados pela Constituição. Roosevelt respondia às críticas dizendo que ele era o único candidato verdadeiramente conservador, já que, em sua opinião, ou o Estado apresentava alternativas rápidas à nação, ou os bolcheviques teriam condição de liquidar o capitalismo.

Para Roosevelt, a crise interna dos Estados Unidos atingira proporções tão graves, que deveria ser tratada com a mesma urgência e rigor com que se trataria uma agressão externa. A Grande Depressão tinha de ser enfrentada com medidas de guerra. Não havia outra alternativa, a não ser correr o risco de uma revolução socialista no país. Em defesa do capitalismo, portanto, Roosevelt propôs aquilo que, para a História, tornou-se conhecido como o New Deal (Novo Acordo).

Apesar de preso a uma cadeira de rodas, como conseqüência de um ataque de paralisia em 1920, Roosevelt mostrou-se enérgico e disposto a quebrar todas as tradições políticas de seu país, se necessário, para defender seus pontos de vista. A primeira tradição foi rompida quando Roosevelt resolveu participar pessoalmente da convenção do Partido Democrata reunida em junho de 1932, em Chicago, com o objetivo de escolher o candidato do partido às novas eleições presidenciais. Candidatos jamais faziam isso.

Roosevelt foi, finalmente, escolhido na convenção de Chicago, mas após várias votações nervosas. Estava claro para todo o mundo que o candidato do Partido Democrata seria o novo presidente do país, já que o Partido Republicano estava desmoralizado pela crise. Roosevelt tinha um ótimo currículo. Era culto (formado na Universidade de Harvard) e, como governador de Nova York, era eficaz e popular entre os eleitores. Mas o momento era de profunda crise nacional, e ninguém sabia ao certo se ele teria a energia e a experiência necessárias. Além disso, a ala conservadora do Partido Democrata não via com bons olhos o programa de Roosevelt, que, para ela, tinha ênfase excessiva no componente social.

Ao assumir sua candidatura, Roosevelt anunciou o New Deal, comprometendo-se a reduzir as despesas improdutivas (desnecessárias) do governo federal, a dar ajuda aos agricultores e aos mais prejudicados pela crise, e prometeu realizar obras públicas para gerar empregos. Mas, principalmente, Roosevelt declarou que o governo federal tinha uma responsabilidade permanente de assegurar o bem-estar social. Tratava-se de um importante ponto de inflexão na História americana, um verdadeiro divisor de águas. O país em que o capitalismo apresentava seus triunfos mais decisivos e espetaculares preparava-se para fazer grandes concessões de natureza social.

Hoover disputou com Roosevelt sua reeleição pelo Partido Republicano. O aspecto mais interessante dessa disputa é que ela revelou, de forma cristalina, a bipolaridade que, em circunstâncias distintas, sempre marcou a política americana: a tensão entre “individualistas” – os que defendem o primado do “cada um por si” – e “sociais” – os que têm certas preocupações com o bem-estar da sociedade como condição para a evolução da nação como um todo. Autores consagrados, como Arthur Schlesinger Jr., que foi assessor especial do presidente John Fitzgerald Kennedy, acreditam mesmo que a vida política dos Estados Unidos é determinada por uma série de ciclos, em que os dois pólos se sucedem.

Quando a economia está mal, como na Grande Depressão, e o país tem de se recuperar, são os “sociais” que ganham predominância. Atingido novamente um estágio de equilíbrio e abastança, os conservadores passam à frente, e começa um novo ciclo de individualismo. Nessa alternância, que refletiria as oscilações da classe média, estaria o segredo da prosperidade americana: um novo ciclo corrigiria as distorções e extremos da época que acabava de se encerrar (para um aprofundamento deste tema, veja o excelente livro Os ciclos da História americana, de Arthur Schlesinger Jr., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1992).

Mas, mais interessante ainda, essa característica não pode ser totalmente creditada às oscilações da classe média. Faz parte da política americana desde que o país começou a existir, no século XVIII. Exemplo disso foram as polêmicas entre dois dos fundadores do Estado americano, Alexander Hamilton e Thomas Jefferson. Hamilton era partidário de um Estado eficiente, que colocava a ordem, a disciplina e a produção acima de tudo, e que se baseava, amplamente, no apoio das grandes corporações e grupos econômicos. Jefferson, autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, enfatizava os direitos individuais, a democracia, e temia o poder financeiro.

Nas eleições presidenciais de 1800, em que Jefferson disputou com o então presidente John Adams, seus adversários o acusavam de “revolucionário”, “ateu”, e excessivamente identificado com a Revolução Francesa (1789). Para muitos, Jefferson era a personificação dos “jacobinos” – a ala da Revolução Francesa que mais longe queria levar os ideais utópicos de “liberdade, igualdade, fraternidade”. Jefferson era atacado quase nos mesmos termos – mas, obviamente, em circunstâncias históricas totalmente distintas – com que os adversários de Roosevelt tentariam identificá-lo aos bolcheviques, em 1932.

 

7. O NEW DEAL EM AÇÃO

Apesar de todas as acusações, Roosevelt seria eleito por quatro vezes sucessivas ao cargo de Presidente dos Estados Unidos, só deixando a Casa Branca em abril de 1945, quando morreu. Roosevelt foi o responsável pelas maiores reformas econômicas e sociais de seu país no século XX. Montou uma estrutura nacional de seguro social, civilizou as relações entre capital e trabalho e assegurou um mínimo de bem-estar aos pobres, além de estabilizar uma sólida classe média – a coluna dorsal do capitalismo americano.

O New Deal, na concepção de seu formulador, seria praticado em duas etapas, a partir de sua posse, em 1933: a primeira, de recuperação da economia; a segunda, de reformas estruturais de longo alcance. É claro que nem sempre era possível definir com clareza o limite entre uma etapa e outra, mas essa classificação ajudava a hierarquizar os atas da Administração por ordem de urgência. O New Deal também preocupou-se, fundamentalmente, com quatro grandes áreas da economia e da sociedade: agricultura, indústria, previdência social e governo.

No setor da agricultura, Roosevelt desenvolveu uma política de dotação de créditos às milhares de famílias de produtores em dificuldades. Para reduzir a oferta de produtos no mercado, e dessa forma aumentar seu preço, o governo oferecia subsídios aos agricultores que voluntariamente diminuíssem sua produção, ou apenas se dedicassem a cultivas que enriquecessem o solo, sem potencial de mercado. Em 1940, cerca de 6 milhões de agricultores faziam parte desse programa.

Roosevelt também dedicou atenção à busca de novos mercados para os quais os Estados Unidos poderiam exportar sua produção agrícola. Em 1939, como resultado desse conjunto de providências, a renda agrícola havia dobrado em relação à de 1932.

Na indústria, o New Deal criou uma série de decretos e programas cujo objetivo era diminuir a jornada de trabalho, proibir a exploração de mão-de-obra infantil, assegurar o direito de negociação coletiva dos trabalhadores e seu direito de se filiarem aos sindicatos de sua escolha. Tornou, também, ilegal uma prática que era muito comum: as empresas tinham o direito de não contratar um trabalhador associado a algum sindicato ou associação trabalhista. Em 1940, havia 9 milhões de trabalhadores sindicalizados nos estados; esse número subiu para 15 milhões em 1945, logo após a Segunda Guerra.

No setor da previdência social, o New Deal deu, pela primeira vez na História dos Estados Unidos, garantias aos velhos, desempregados e inválidos. Até aquela época, os Estados da federação é que tinham a incumbência de legislar sobre o assunto. Mas, além de gerar injustiças sociais (muitos Estados simplesmente vetavam qualquer tentativa no sentido da instituição da proteção social), cada Estado, individualmente, não poderia dar conta de problemas de dimensões grandiosas e nacionais. Roosevelt teve de desenvolver uma árdua batalha para aprovar, no Congresso, programas prevendo benefícios para cegos, aleijados e crianças excepcionais, seguro-desemprego e serviços de saúde pública.

Roosevelt também criou mega-projetos públicos que, além de captar preciosos recursos para o Estado, também ofereciam dezenas de milhares de empregos. O mais importante dentre esses projetos foi o Tennessee Valley Authority (Administração do Vale do Tennessee), que incluía a construção de barragens hidrelétricas, reaproveitamento de solo para cultivo e fomento a inúmeras atividades econômicas naquela região.

No âmbito da administração pública, Roosevelt desenvolveu uma forte campanha contra a corrupção em cargos do governo, e contra o abuso de poder por parte dos partidos. Mais importante ainda, o presidente forçou um debate nacional sobre o Poder Judiciário, que estava funcionando como uma verdadeira barreira ao New Deal. Os juizes simplesmente consideravam inconstitucionais os projetos que afrontavam suas próprias concepções filosóficas.

Roosevelt, que lutou para impor uma reforma no Judiciário, afirmava que o funcionamento independente de um Poder não significava que aquele Poder tinha o direito de obstaculizar, em nome de suas convicções, medidas constitucionalmente legítimas e urgentes para a nação. A polêmica restituiu ao cidadão médio americano a noção do valor da democracia, que se perdera em meio à crise no início da década de 30.

 

8. COMEÇA A SEGUNDA GUERRA

Quando o Japão atacou Pearl Harbor, base militar americana no Pacífico, em 7 de dezembro de 1941, os Estados Unidos, graças ao New Deal, já haviam superado a fase crítica da Grande Depressão. A infra-estrutura econômica do país recuperara o equilíbrio, e funcionava sob novas condições. O New Deal permitiu que os Estados Unidos emergissem da Segunda Guerra como a maior potência econômica e militar capitalista, a única capaz de fazer frente à expansão do império soviético.

Mas isso não quer dizer que as teses de Roosevelt tenham sido adotadas sem oposição, ou que a ala mais conservadora – tanto do Partido Republicano quanto do Democrata – tenha deixado de acreditar que Roosevelt era um “socialista”. A aprovação de cada medida importante do New Deal exigiu tremendas batalhas no Congresso e, como notamos acima, contra um Poder Judiciário esclerosado e avesso às reformas.

A oposição ao New Deal não se encerrou com a morte de Roosevelt. Nas décadas seguintes, muitas de suas disposições foram alteradas em sentido socialmente restritivo, ou mesmo revogadas. De certa forma, a História contemporânea dos Estados Unidos pode ser descrita como uma luta entre as facções pró e contra as reformas econômicas e sociais patrocinadas por Franklin Delano Roosevelt.

A principal característica da era Reagan quanto à política interna foi, precisamente, os ataques de violência e amplitude sem precedentes às conquistas sociais possibilitadas pelo New Deal. Já nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra, a reação ao New Deal aconteceu sob a forma do “macarthismo” e da resistência acirrada à integração dos negros na sociedade.

 

 

 

                 
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