VER

HISTÓRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEXTOS

 

 

 
Brava Gente Brasileira

Mônica Duarte Dantas & Maria Luiza Ferreira de Oliveira

 

 

"Já raiou a liberdade

No horizonte do Brasil

[...]

Brava gente brasileira!

Longe vá temor servil

Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil

 

Com o Hino da Independência, comemoravam as elites a quebra dos laços políticos do Brasil em relação a sua antiga metrópole, Portugal. A letra ressalta todo o tempo a liberdade alcançada, a participação do povo brasileiro e o esplendor da nova nação. Fica, no entanto, a questão de que liberdade era essa e, acima de tudo, para quem. Mais ainda, que povo brasileiro formava a nação? Em uma sociedade marcada pela diversidade regional e pelas desigualdades, sociais, econômicas e jurídicas, tais questões não são simples.

Ser um Estado independente pressupunha que as diversas regiões do Brasil se reconhecessem como pertencentes a uma mesma pátria, submetida a um mesmo governo, e que a população que aqui habitava, originária de diferentes partes do mundo, se identificasse como um mesmo povo com um futuro em comum. Essa não era uma tarefa fácil em um país cuja população, na época da independência, era composta por cerca de 15% de índios, menos de 30% de brancos, outros 30% de escravos e o restante de negros e mulatos livres.

Na tentativa de lidar com esse problema, as elites brasileiras buscaram construir formas de representação da nova nação e, portanto, de sua história. Em 1845, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro premiou o texto “Como se deve escrever a história do Brasil”, de C. F. P. von Martius. Para o naturalista alemão, “o sangue português, em um poderoso rio, deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica”. A mistura das raças, com a evidente predominância branca, reservava ao país um grande futuro.

O “poderoso rio português” significava a imposição, a toda a população de negros, mestiços e índios, dos valores partilhados pela elite branca responsável pela condução dos rumos políticos do país. Ou seja, a absorção dessas populações se daria apenas naquilo que traziam de contribuição para o futuro da nação, entenda-se sua capacidade de trabalho, o qual que deveria ser realizado de acordo com as necessidades das camadas superiores da sociedade.

Entre a idealização do que deveria ser o povo brasileiro e a forma como essas populações se portavam em seu dia-a-dia havia, porém, uma grande distância, que colocava dificuldades para as elites do Império. Para sua incompreensão e desespero, livres, libertos e escravos – africanos, crioulos, índios, mestiços e mesmo brancos pobres – pareciam não apenas ter idéias próprias, mesmo que não formuladas nos moldes dos projetos políticos dos grupos dominantes, como também viver de acordo com valores e expectativas que não se coadunavam com aqueles partilhados por tais grupos.

Desde o período colonial a diversidade entre regiões e populações se fazia sentir, ferindo as suscetibilidades das elites, fosse ela coloniais ou metropolitanas. Com a independência e com a necessidade de consolidação política do novo Estado, as formas de vida da população (que não condiziam com as expectativas das elites) e a tenacidade que demonstraram em sua defesa (fosse em grandes revoltas ou em pequenas ações cotidianas), se não alcançaram grandes transformações, marcaram presença ao longo de todo o século XIX.

 

Sobre o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

          Em 1838 foi fundado, sob a proteção de Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), cujo estatuto estabelecia como tarefas de seus membros a coleta e publicação de documentos relevantes para a história do Brasil, o incentivo de estudos históricos no ensino público e o estímulo à criação de órgãos provinciais de maneira a integrar as diversas províncias ao projeto de centralização do Império. Em 1839, a revista do IHGB passou a circular divulgando os trabalhos de seus integrantes e colaboradores. Ainda que o objetivo de escrever uma história do Brasil não estivesse explícito no primeiro estatuto, sempre se manteve subjacente aos propósitos do instituto. Escrever a história era definir a identidade de “nosso verdadeiro caráter nacional”, nos dizeres de seu primeiro secretário.

 

 

 

                 
7