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HISTÓRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEXTOS

 

 

 

Revolução Industrial

 

 

1. Introdução

A Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra integra o conjunto das "Revoluções Burguesas" do século XVIII, responsáveis pela crise do Antigo Regime, na passagem do capitalismo comercial para o industrial. Os outros dois movimentos que a acompanham são a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, que sob influência dos princípios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para Contemporânea.

Em seu sentido mais pragmático, a Revolução Industrial significou a substituição da ferramenta pela máquina, e contribuiu para consolidar o capitalismo como modo de produção dominante. Esse momento revolucionário, de passagem da energia humana para motriz, é o ponto culminante de uma evolução tecnológica, social, e econômica, que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média.

 

2. Pioneirismo inglês

Cinco elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, trabalho, recursos naturais, mercado, transformação agrária.

Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII. Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os mercados mundiais e transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares. Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio mercado.

Até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão, feito com matéria-prima colonial (Estados Unidos, Índia e Brasil). Tecido leve ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, na arrancada industrial da Inglaterra. As colônias contribuíam com matéria-prima, capitais e consumo.

Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros; isto é, havia dinheiro barato para os empresários.

Depois de capital, recursos naturais e mercado, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários. As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transformaram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos.

Duas conseqüências se destacam: 1) diminuiu a oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que ganhava impulso o mercado, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de satisfazê-lo; 2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade.

A população cresceu, o mercado consumidor também e sobrou mão-de-obra para os centros industriais.

 

3. Artesanato, manufatura e maquinofatura (industria)

O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu no fim da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção e controlava o tempo da produção.

A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o artesão trabalhava em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir. Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e tecer; e finalmente fiar. Quando o burguês, dono dos meios de produção, reúne em um mesmo espaço, operários assalariados e as ferramentas de trabalho, estava criado o sistema fabril, no qual os trabalhadores (antigos artesãos) perderam o controle sobre o produto de seu trabalho.  Neste mesmo espaço fabril inventou-se uma primeira solução técnica na organização do trabalho que contribuiria decididamente para o avanço sem precedentes na história do trabalho do homem: a divisão do trabalho, na qual cada trabalhador se especializava em uma etapa da produção.

Na maquinofatura (indústria), o trabalhador estava submetido ao regime de funcionamento das máquinas e à gerência direta do burguês. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial.

 

4. Mecanização da Produção

As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos colocados para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Da Vinci imaginou a máquina a vapor no século XVI, mas ela só teve aplicação no século XVIII.

Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante, por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começaram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica, mas produzia fios grossos. Em 1779, Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.

Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movimento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.

Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Estados Unidos, Eli Whitney inventou o descaroçador de algodão.

 

5. As mudanças sociais

 A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do trabalhador braçal, provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades, com enormes concentrações urbanas. A produção em larga escala e dividida em etapas irá distanciar cada vez mais o trabalhador do produto final, já que cada grupo de trabalhadores irá dominar apenas uma etapa da produção. Na esfera social, o principal desdobramento da revolução foi o surgimento do proletariado urbano (classe operária), como classe social definida. Vivendo em condições deploráveis, tendo o cortiço como moradia e submetido a salários irrisórios com longas jornadas de trabalho, a operariado nascente era facilmente explorado, devido também, à inexistência de leis trabalhistas. O desenvolvimento das ferrovias irá absorver grande parte da mão-de-obra masculina adulta, provocando em escala crescente a utilização de mulheres a e crianças como trabalhadores nas fábricas têxteis e nas minas. O agravamento dos problemas sócio-econômicos com o desemprego e a fome foram acompanhados de outros problemas, como a prostituição e o alcoolismo.

A Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em fábricas. Os aspectos mais importantes, que trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção (instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).

Uma das primeiras manifestações da Revolução foi o desenvolvimento urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de trabalhadores, em condições miseráveis em cortiços. Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias parados neste caso.

A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego. Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas.

 

6. A resistência dos trabalhadores: Ludismo, Trade Unions e Cartismo

O avanço do capitalismo em meio à exploração e à miséria fermentou o ativismo trabalhista do século XIX, cujo objetivo era destruir as condições subumanas estabelecidas pela industrialização. Num primeiro momento, os operários, pouco conscientes de sua força, manifestavam seu descontentamento, diante das péssimas de vida e de trabalho em que se encontravam, quebrando as máquinas, tidas como responsáveis pela sua situação da miséria. William Ludd foi um dos líderes desse movimento, por isso, denominado ludismo, reprimido violentamente pelas forças policiais. Os ludistas ficaram lembrados como "os quebradores de máquinas".

A seguir os trabalhadores decidiram organizar-se em associações que lutavam pela melhoria das suas condições de vida e de trabalho, nasceram assim os sindicatos (trade unions), no início não reconhecidos oficialmente e reprimidos de forma violenta. Muito depois, diante das suas vitórias, acabaram conquistando o reconhecimento oficial de legítimos representantes da classe trabalhadora. Por meio de lutas, conseguiram alcançar seus objetivos quanto à elevação dos salários, limitação das horas de trabalho, garantias aos trabalhadores acidentados, restrição de idade e número de horas de trabalho das crianças, etc.

Na Inglaterra, o movimento operário pouco a pouco foi assumindo um caráter político. Os trabalhadores desejavam uma maior participação nas decisões governamentais que direta ou indiretamente os afetavam. Organizou-se, então, o movimento cartista, que reivindicava, entre outras coisas, a extensão do direito de voto às camadas menos favorecidas (até então restrito aos cidadãos de altas rendas), o pagamento de salário para dos deputados do Parlamento, a regulamentação do trabalho feminino, a extinção do trabalho infantil, a limitação de oito horas para a jornada de trabalho, a folga semanal e o salário mínimo. Os trabalhadores não foram atendidos prontamente e os direitos trabalhistas ingleses viriam pelas mãos da própria burguesia, que concedeu benefícios depois de um século de industrialização.

Em meio a esta efervescência surgiram teóricos que se debruçaram sobre a questão social defendendo a criação de uma sociedade mais justa, sem as desigualdades e a miséria reinantes. Assim apareceram as principais quatro grandes correntes de pensamento: o socialismo utópico, o socialismo científico, o anarquismo e o socialismo cristão.

 

7. Conseqüências gerais da Revolução Industrial

O século XIX significou o século da hegemonia mundial inglesa. Durante a maior parte desse período o trono inglês foi ocupado pela rainha Vitória (1837-1901), daí ter ganho a denominação de era vitoriana. Foi a era do progresso econômico-tecnológico e, também, da expansão colonialista, além das contínuas lutas e conquistas dos trabalhadores.

Na busca de novas áreas para colonizar, a Revolução Industrial produziu uma acirrada disputa entre as potências, originando inúmeros conflitos e um crescente armamentismo que culminariam na Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914.

A era do progresso industrial possibilitou a transformação de todos os setores da vida humana. O crescimento populacional e o acelerado êxodo rural determinaram o aparecimento das grandes cidades industriais: Londres e Paris, que em 1880 já contavam, respectivamente, com 4 e 3 milhões de habitantes. Esses grandes aglomerados humanos originaram os mais variados problemas de urbanização: abastecimento de água, canalização de esgotos, criação e fornecimento de mercadorias, modernização de estradas, fornecimento de iluminação, fundação de escolas, construção de habitações, etc.

No aspecto social, estabeleceu-se um distanciamento cada maior entre o operariado (ou proletariado), vivendo em condições de miséria, e os capitalistas. Separavam-se em quase tudo, no acesso à modernidade, nas condições de habitação e mesmo nos locais de trabalho: nas grandes empresas fabris e comerciais, os proprietários já não estavam em contato direto com os operários, delegando a outros administradores as funções de organização e supervisão do trabalho.

O mercado de trabalho, a princípio, absorvia todos os braços disponíveis. As mulheres e as crianças também eram atraídas, ampliando a oferta de mão-de-obra e as jornadas de trabalho oscilavam entre 14 e 18 horas diárias. Os salários, já insuficientes, tendiam a diminuir diante do grande número de pessoas em busca de emprego e da redução dos preços de venda dos produtos provocada pela necessidade de competição. Isso sem contar que as inovações tecnológicas, muitas vezes, substituíam inúmeros trabalhadores antes necessários à produção.

Aumento das horas de trabalho, baixos salários e desemprego desembocavam freqüentemente em greves e revoltas. Esses conflitos entre operários e patrões geraram problemas de caráter social e político, aos quais, em seu conjunto, se convencionou chamar de questão social. Os trabalhadores organizaram-se, então, em sindicatos para melhor defenderem os seus interesses: salários dignos, redução da jornada de trabalho, melhores condições de assistência e segurança social, etc. Diante desse quadro surgiram as novas doutrinas sociais, pregando a criação de uma nova sociedade, livre da miséria e da exploração reinante.

 

 

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As origens e o desenvolvimento da Revolução Industrial Britânica

Eric J. Hobsbawm

Discutiu-se freqüentemente sobre as condições gerais para a "arrancada" inicial. A maioria está de acordo em que o estímulo particular que impulsiona a indústria a atravessar a porta da revolução industrial pode apenas ocorrer sob determinadas condições econômicas e sociais, que não precisamos discutir extensamente aqui, pois atualmente não são objeto de controvérsia, pelo menos no que diz respeito à Grã-Bretanha, em cujo século XVIII não faltou nenhuma. Além disso, é consenso que a presença destes estímulos é mais provável numa indústria produtora de bens de consumo amplamente difundidos, estandardizados razoavelmente mais para compradores pobres do que para ricos, fabricados com matérias-primas cuja demanda pode crescer sem aumentar excessivamente os custos, e cujo transporte reflete pouco no preço (em tempos recentes tornou-se a assinalar a situação vantajosa da Grã-Bretanha no período pré-industrial, quando os transportes navieiros eram bastante menos custosos do que os terrestres). Uma indústria desta natureza se prestaria de maneira especial, à revolução, se fosse possível introduzir a mudança tecnológica com sentido oportunista e a baixo custo, e se não fosse demasiado complexo; isto é, se não exigisse um conjunto altamente capacitado ou tecnicamente especializado de empresários e Operários, ou um investimento preliminar excessivo, ou inovações científicas e tecnológicas prévias. Quando os novos métodos de produção não se mostram claramente superiores, em eficiência e rentabilidade, ao velho e provado sistema, surge sempre um período de experimentação e incerteza, que para muitos investidores significou a falência. Mas, quanto mais simples e menos custosas forem as inovações, mais provável será sua adoção geral. Em outras palavras, "não é uma simples bobagem supor que o setor têxtil foi o melhor preparado para dar sinal de partida na primeira arrancada".

É necessário, no entanto, conhecer ainda as condições superficiais que estimularam essa "arrancada". Entre elas se encontram, certamente: a) uma limitação externa para a expansão dos velhos métodos (como, por exemplo, a escassez da mão-de-obra ou o alto custo dos transportes) que torna difícil aumentar a produção além de certo ponto com os métodos existentes, e, sem dúvida, b) uma perspectiva de expansão do mercado, tão ampla, que justifique a diversificação ou o aperfeiçoamento dos métodos antigos; e c) tão rápida, que a ampliação e modificação destes não possa enfrentá-la. Mais, quais são as circunstâncias que produzirão essas condições?

Parece provável que um estudo do mercado nos proporcione a resposta. E aqui, a redescoberta da importância do que Marx chamou "o mercado mundial", permitiu um progresso significativo. Na verdade, não basta apenas sugerir que "o impulso inicial em direção à industrialização possa brotar tanto do exterior, quanto do interior de uma mesma economia". Sob as condições do desenvolvimento capitalista, antes da revolução industrial, é mais provável que o impulso provenha do exterior. Por essa razão, está cada vez mais claro que as origens da revolução industrial da Grã-Bretanha não podem ser estudadas exclusivamente em termos de história britânica. A árvore da expansão capitalista moderna cresceu numa determinada região da Europa, mas suas raízes tiraram seu alimento de uma área de intercâmbio e acumulação primitiva muito mais ampla, que incluía tanto as colônias de além-mar, ligadas por vínculos formais, quanto as "economias dependentes" da Europa Oriental, formalmente autônomas. A evolução das economias escravizadoras de além-mar, e das baseadas na servidão, do Oriente, participaram tanto do desenvolvimento capitalista, quanto a evolução da indústria especializada e das regiões urbanizadas do setor mais "avançado" da Europa. Começa a ficar claro, além disso, que eram necessários os recursos de todo esse universo econômico para abrir uma fenda industrial em qualquer país do setor economicamente avançado. Na verdade, é muito provável que, dadas as condições dos séculos XVI a XVIII, houvesse lugar no mundo apenas para uma potência industrial avançada, de tal forma que agora devemos nos perguntar porque devia ser precisamente a Inglaterra essa potência avançada. (...)

Qual foi o fator que criou uma base verdadeiramente adequada para o desenvolvimento posterior da economia britânica? A resposta é bem conhecida: foi a construção das vias férreas entre 1830 e 1850, com sua capacidade de consumir ferro e aço que - medida com os padrões do tempo - resultava ilimitada. Em 1830, ano da inauguração da estrada de ferro Liverpool-Manchester, a produção de aço britânico oscilava entre 600 e 700 mil toneladas, mas depois da "loucura" ferroviária da década de 1840-1850 atingiu (entre 1847 e 1848) os dois milhões de toneladas. Todos concordam em que foram as estradas de ferro, o fator determinante do desenvolvimento da siderurgia e do carvão, nesse período.

Qual foi a causa desta explosão imprevista dos investimentos ferroviários? Nesse caso não se pode supor a previsão de enormes ganhos e a demanda insaciável que produziram a "arrancada" do algodão, mesmo quando entre 1830-1840 os benefícios potenciais da revolução técnica foram melhor compreendidos que no século XVIII. Nem a demanda de transporte ferroviário (razoavelmente previsível por ocasião dos primeiros investimentos maciços), nem os lucros que poderiam ser esperados, podem explicar a paixão com a qual o público dos investidores britânicos se lançou na construção das estradas de ferro. Muito menos pode dar conta da perturbação mental que tomou os investidores durante booms especulativos como a "loucura ferroviária" das décadas de 1830 a 1850. Na verdade, como se sabe, muitos investidores perderam seu dinheiro, e, para a maioria dos que restaram, as vias férreas acabaram sendo antes um cofre-forte, do que um investimento lucrativo.

Dispomos realmente de esboços para uma explicação deste processo. Já faz tempo, é reconhecido que as vias férreas transformaram o mercado de capitais, criando uma saída para as economias das classes abastadas, e absorvendo "a maior parte das 60 milhões de libras esterlinas que constituíam, cada ano, o excedente de capital britânico à procura de oportunidades de investimento". Mas, não seria razoável inverter esta afirmação e sustentar que as estradas de ferro foram criadas pela pressão do excedente que se acumulava, diante da impossibilidade de encontrar uma saída adequada nas indústrias já existentes, que não estavam em condições de absorver novos capitais? A pressão foi particularmente intensa nesse período (como de maneira geral é admitido) porque a alternativa mais óbvia - exportar os excedentes de capital -, tinha sido temporariamente desincentivada pelas violentas experiências padecidas por aqueles que investiram na América meridional e setentrional. Do ponto de vista dos investidores, se as estradas de ferro não tivessem existido, teria sido preciso inventá-las. (...)

Neste artigo limitei-me a apresentar algumas questões fundamentais da história econômica que se relacionam com a origem e o desenvolvimento da revolução industrial britânica, em detrimento da análise de muitos aspectos tradicionais do tema, assim como também de alguns problemas contíguos. Pode ser afirmado com tranqüilidade que o interesse pelas origens e o desenvolvimento da revolução industrial britânica é muito maior hoje do que no passado. Também não há dúvida de que estamos cada vez mais perto de uma formulação clara do problema, e, talvez, de algumas hipóteses adequadas, mas a discussão ainda hoje continua sendo nebulosa e obscura. Espero que este ensaio possa contribuir para torná-la mais transparente.

 

 

 

                 
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