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Levante do Gueto de Varsóvia

Daniel Benjamin Barenbein

 

 

            Era uma terrível e fria manhã de primavera, recém saída do inverno. O ar gelado se fazia sentir em toda a sua força e severidade. Mas, pior que qualquer frio eram as doenças que aquela altura e naquelas condições de "sobrevivência" assolavam toda aquela gente. E o mundo vivia um caos, transformado num inferno que parecia não ter fim, onde qualquer instinto de natureza humana, de solidariedade tinham acabado e onde imperavam o ódio, o mal, a desgraça e onde assassinos se deleitavam vendo suas vítimas desarmadas perecerem torturas, castigadas, fuziladas, gazeadas, atormentadas pela fome, frio, pestes e todo tipo de desgraça. Era o auge do terror do regime nazista, Adolf Hitler era o homem mais poderoso do mundo, que literalmente junto com seus aliados do Eixo, dominavam quase toda a Europa, com exceção da Inglaterra, norte da África e boa parte Ásia. Nada parecia capaz de derrotá-lo ou pará-lo.

            Nesta manhã de frio, começava a brilhar uma pequena luz, assim como as luzes da resistência se acendiam na França, na Iugoslávia e em vários países dominados por Hitler. Fazia tempo que em Varsóvia se desconfiava que em breve iria ser dada a ordem de se liquidar o Gueto. Mas para começar, o que eram os guetos? "Ghetto", no sentido original do termo, significavam lugares onde pessoas eram confinadas, dentro de uma cidade. Esse tipo de segregação já é antiga. Todavia, em seu sentido atual, "Ghetto" tem um sentido definido: locais onde a população israelita foi segregada durante a II Guerra.

            Desde 1933, pouco tempo depois que se tornou ditador na Alemanha, Hitler decidiu iniciar o projeto de campos e guetos, que seriam sociedades separadas onde os judeus viveriam isolados dos alemães para não "contaminá-los", pois o mínimo contato entre um judeu e um alemão causaria danos irreparáveis a este último. Este processo se acelerou com o inicio da guerra em 39, e foi nesse ano que foi criado o gueto de Varsóvia. Nos guetos os judeus tinham alguma autonomia, embora sempre sob a forte vigilância alemã.

            Eram bairros isolados de todo o resto onde viviam apenas judeus. Toda a infra-estrutura necessária para sobrevivência deveria ser criada lá dentro, pois seria proibida a saída de judeus do gueto de sua formação em diante. Não é preciso pensar muito para perceber que a instituição do gueto tinha outra finalidade além de separar os judeus: matá-los aos poucos.

            Em um espaço onde cabiam 20 mil pessoas, o Gueto de Varsóvia foi montado com quase 450 mil pessoas, ou seja 17 famílias por casa. Nestas condições e sem infra-estrutura de saúde, as epidemias se espalhavam rapidamente. Para se ter uma idéia, os judeus tinham direito à 500 calorias diárias - enquanto os eslavos tinham direito a 800 e os alemães de 1500 a 1800.  Não satisfeitos com a velocidade das mortes, em 41, os alemães decidiram começar os fuzilamentos em massa, onde grupos de judeus, de preferência, mulheres e crianças eram mortos  fuzilados na rua, na frente de seus parentes, apenas para aumentar a desgraça e a humilhação.

            Em 42, iniciou-se as deportações em massa para campos de extermínio, começando pelos inaptos, doentes, mulheres, idosos e crianças. A maioria dos vagões carregados de carga humana amassada como pasta eram destinados à Treblinka. Como aponta Goldgahen, os bois carregados pelos mesmos vagões tinham que ir bem separados uns dos outros para não morrer por sufocamento, diminuindo assim a capacidade dos trens. E mais: os bois tinham direito a comida e bebida, e parada para respiro e descanso. Além disso, a viagem não podia durar mais de 2 dias para não prejudicar à saúde dos animais.

            Já os judeus viajavam nos mesmos cargueiros de 4 a 5 dias, espremidos, sem espaço nem para sentar, nem em pé direito dava para ficar, sem direito a água, comida ou direito a paradas. Quando se chegava ao destino aproximadamente 60% das pessoas já tinham perecido no próprio trem. Os vivos eram encarregados de limpar o trem e se livrar dos cadáveres. Os judeus do gueto ignoravam o destino de sues familiares e amigos, apesar de correr a estória do extermínio, eles se recusavam a acreditar e preferiam acreditar nos boatos de que seus irmãos estavam sendo reassentados em terras distantes, na Ucrânia.

             Finalmente chega-se ao ano de 1943. No Gueto de Varsóvia, as pessoas já não mais acreditam que os transportes levavam as pessoas para trabalhar como agricultores na Ucrânia e se recusam a embarcar. São fuziladas ali mesmo. Sentindo o fim próximo, o Gueto resolve reagir. Com o dinheiro que ainda conseguiram esconder, os judeus compram a alto preço armas dos comunistas poloneses e de mercenários. Eram poucas, mas eram o que tinham.  Dezoito de abril de 1943, na Rua Mila número 18, quartel general dos revoltosos do gueto, eles já sabiam que a ordem de destruir o gueto fora expedida. Era véspera de Pessach, a noite em que os judeus comemoram a libertação, o fim da escravidão e a saída do Egito. Hitler havia decidido que em 3 dias ele queria o fim dos 60 mil sobreviventes do Gueto. A ordem era liquidar o gueto. Dia 18. O número dezoito em hebraico, onde cada letra corresponde a um número, significa "Chai" que em português é "vida".

            A noite os judeus se preparam, é chegada a hora. Se escondem em trincheiras e se preparam para uma guerra de guerrilha. Os prédios são escoltados, os símbolos religiosos são protegidos. Homens, mulheres, crianças, idosos, todos são soldados engajados na luta. Em dezenove de abril de 1943, dia do levante. Ordenado por Himmler, chefe das SS, e comandado pelo General Jurgen Stroop, um destacamento do exército alemão, apoiado por blindados, lá com um objetivo: destruir o gueto em três dias. Não foi tão fácil. O mito da invencibilidade alemã, destruído em Stalingrado, já não era suficiente para atemorizar os judeus. E, ao entrarem no gueto, dispostos a agir com a mesma liberdade com que sempre faziam, os soldados nazistas foram recebidos a bala e tiveram que recuar, alguns morreram e suas armas foram recolhidas pelos rebeldes. O número de tropas aumentou, e o vigor também. Porém de nada adiantou, os judeus continuaram lá firmes lutando, bravos contra toda artilharia.

            Os alemães decidem utilizar tanques pesados. Os judeus, utilizando uma tática russa recém-desenvolvida, atacaram com garrafas de gasolina com um pavio: os chamados "coquetéis molotov". Explodiram alguns tanques, dominaram outros, De posse de tanques, contra-atacaram. O esforço era supremo. Surpreso pela resistência, os nazistas resolvem bombardear o gueto. De nada adiantava, os combatentes fugiam de prédio a prédio, e preferiam se atirar as chamas do que se entregar aos nazistas. Muitos morreram segurando à Torá para não entregá-la aos nazistas.

             Cansado de esperar, foi dada a ordem máxima de se queimar completamente o gueto, cercado de soldados das forças nazistas. No dia 16 de maio de 1943, foi encontrado destruído o quartel general da Rua Mila 18. Aproximadamente 100 judeus ainda conseguiram escapar pelos túneis de encanamento. Terminava ali o levante do Gueto de Varsóvia, uma página brilhante de luta e dedicação na história hebraica.

            Vinte e oito dias durou a luta no gueto. Um dia a mais do que a Polônia toda resistiu ao ser invadida. Uma semana a menos do que a Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França resistiram a "blitz" nazista. Vinte e oito dias de luta sem prisioneiros, sem Convenção de Genebra, sem Aliados – que pareciam não saber o que estava acontecendo.

 

Quem foi Mordechai Anielewicz?

             Mordechai Anilevitch nasceu na Polônia. No começo da guerra, fugiu para a Rússia e quando voltou, entrou no gueto para formar uma resistência judaica e tentar salvar outros judeus. No começo, seu grupo era formado só por integrantes do Shomer e eles só tinham uma arma (um revólver). Com essa arma, ele atacou sozinho dois soldados alemães que levavam um grupo de judeus para serem deportados. Ele começou a atirar em direção aos soldados, fazendo com que os judeus se dispersassem. Mas seu ato mais heróico foi a organização do levante do gueto de Varsóvia. Seu grupo ficou maior, agora fazendo parte dele, além do pessoal do Shomer, outros movimentos judaicos. Todos eles tinham um esconderijo que ficava no subsolo da Rua Mila, 18. Lá se escondiam, aproximadamente, 370 pessoas num espaço muito pequeno. A 19 de abril de 1945, Pessach, aconteceu o levante. Dias depois, Mordechai Anilevitch disse a Isaac T., que também participou do Levante: "Se eu morresse hoje, já estaria feliz". Ele se referia aos judeus unidos lutando contra os nazistas. Mais ou menos depois de um mês, os nazistas descobriram o esconderijo da resistência judaica e jogaram gás lá dentro, matando quase todos, mas alguns ainda conseguiram fugir. Quando todos já estavam praticamente mortos, eles atearam fogo em tudo.

Mordechai Anilevitch, foi um dos maiores heróis judaicos. Morreu aos 23 anos, lutando por um ideal. Infelizmente, ele não conseguiu o que desejava, mas só dos outros judeus terem se unido, a ele já valeu. Uma centena de judeus escapou pelo esgoto e foram lutas nas florestas, juntando-se as guerrilhas de Resistências. Alguns dos capturados e enviados a Treblinka, iniciaram um levante lá também. Destes que lutaram na floresta, uma parte tombou em combate, outra sobreviveu para nos contar sua história.

 

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Carta de Mordechai Anilevitch

Varsóvia, 23 de abril de 1943

"Sentimos agora que tudo que passou foi muito pior do que imaginávamos, e apesar de termos tido idéia do nosso fim, a realidade superou a nossa imaginação. Na guerra com os alemães, esforçamo-nos até o máximo de nossas forças, no entanto, estas se tornam cada vez mais débeis e por fim estão desaparecendo. Estamos à beira da aniquilação. Duas vezes obrigamos os alemães a retroceder, porem eles voltaram com maiores forças. Um dos nossos grupos foi aniquilado após 40 minutos de luta, outro lutou aproximadamente seis horas. Nosso depósito de armas explodiu. Sinto que se sucedem acontecimentos heróicos e que tudo isto, tudo o que fizermos tem um grande valor e uma grande significação. Não sou capaz de descrever para vocês a situação em que vivem agora os judeus no Gueto. Pode suceder, talvez um milagre, e que algum dia nos tornemos a ver, mas duvido, duvido muito que assim seja. O último desejo de minha vida cumpriu-se, a defesa heróica que ofereceram os judeus teve um grande significado. A vontade judia e o desejo de vingança tornaram-se um fato. Sinto-me feliz por achar-me entre os primeiros guerrilheiros do Gueto. Onde se encontra a salvação?"

 

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Relatório de um comandante da SS

"No dia 19 de abril, às 8 horas, assumi o comando das forças incumbidas de sufocar o Levante do Gueto, que teve início no mesmo dia, às 6 horas. Quando penetramos no gueto os judeus conseguiram nos repelir com fogo cruzado bem preparado. Os nossos comandos, inclusive tanques e carros blindados foram obrigados a recuar.... A resistência dos judeus e bandidos só poderia ser contida com as nossas respostas enérgicas, durante o período diurno e noturno ...Portanto ordenei destruir e incendiar o Gueto... Os judeus permaneciam e atiravam dos prédios em chamas e só saltavam das janelas e telhados quando o calor se tornava insuportável. Alguns, após cair, com os ossos partidos tentavam atravessar a rua, rastejando, sem largar as armas e atingir os prédios intactos. Muitos judeus escondiam-se nos esgotos. Para expulsa-los lançávamos bombas de gás lacrimogêneo e granadas de mão. Muitos judeus foram capturados. Muitos morreram com as explosões nos esgotos e abrigos. Quanto mais demorava a resistência mais violentos se tornavam meus homens. Tanto da SS, como da polícia e Wehrmacht. Mas sempre cumprindo meu dever de modo exemplar...Graças aos meus homens, conseguimos desentocar 56.065 judeus cujo extermínio pode ser comprovado. Esse total não inclui os judeus que perderam a vida nas explosões e nos incêndios, o que é impossível de calcular. Com a destruição da Sinagoga de Varsóvia, no dia 16 de maio de 1943, às 20:15 horas, foi terminada a tarefa de liquidação do Gueto.  O Gueto não existe mais! " 

 

 

 

 

                 
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