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O Renascimento Cultural

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1. Introdução

Sabemos que na Baixa Idade Média houve a intensificação do comércio e da produção artesanal que resultou no desenvolvimento das cidades, no surgimento de uma nova classe social a burguesia  e na posterior formação das monarquias nacionais. Estas transformações vieram acompanhadas de uma nova visão de mundo, que se manifestou na arte e na cultura de maneira de geral.

A cultura medieval se caracterizava pela religiosidade. A Igreja Católica, como vimos, controlava as manifestações culturais e dava uma interpretação religiosa para os fenômenos da natureza, da sociedade e da economia. A esta cultura deu-se o nome de teocêntrica (Deus no centro). A miséria, as tempestades, as pragas, as enchentes, as doenças e as más colheitas eram vistas como castigos de Deus. Assim como a riqueza, a saúde, as boas colheitas, o tempo bom, a fortuna eram bênçãos divinas. A própria posição que o indivíduo ocupava na sociedade (nobre, clérigo ou servo) tinha uma explicação religiosa.

A arte medieval, feita normalmente no interior das Igrejas, espelhava esta mentalidade. Pinturas e esculturas não tinham preocupações estéticas e sim pedagógicas: mostrar a miséria do mundo e a grandiosidade de Deus. As figuras eram rústicas, desproporcionais e acanhadas. Os quadros não tinham perspectiva. Como as obras de arte eram de autoria coletiva, o artista medieval é anônimo.

A literatura medieval era composta de textos teológicos, biografias de santos e histórias de cavalaria. Isto refletia o domínio da Igreja e da nobreza sobre a sociedade.

Essa visão de mundo não combinava com a experiência burguesa. Essa nova classe devia a sua posição social e econômica ao seu próprio esforço e não à vontade divina, como o nobre. O sucesso nos negócios dependia da observação, do raciocínio e do cálculo. Características que se opunham às explicações sobrenaturais, próprias da mentalidade medieval. Por outro lado, era uma classe social em ascensão, portanto otimista. Sua concepção de mundo era mais materialista. Queria usufruir na terra o resultado de seus esforços. E também claro que o comerciante burguês era essencialmente individualista. Quase sempre, o seu lucro implicava que outros tivessem prejuízo.

A visão de mundo da burguesia estará sintonizada com a renovação cultural ocorrida nos fins da Idade Média e no começo da Idade Moderna. A essa renovação denominamos Renascimento.

 

2. Características do Renascimento Cultural

O Renascimento significou uma nova arte, o advento do pensamento científico e uma nova literatura. Nelas estão presentes as seguintes características:

a) antropocentrismo (o homem no centro): valorização do homem como ser racional. Para os renascentistas o homem era visto como a mais bela e perfeita obra da natureza. Tem capacidade criadora e pode explicar os fenômenos à sua volta.

b) otimismo: os renascentistas acreditavam no progresso e na capacidade do homem de resolver problemas. Por essa razão apreciavam a beleza do mundo e tentavam captá-la em suas obras de arte.

c) racionalismo: tentativa de descobrir pela observação e pela experiência as leis que governam o mundo. A razão humana é a base do conhecimento. Isto se contrapunha ao conhecimento baseado na autoridade, na tradição e na inspiração de origem divina que marcou a cultura medieval.

d) humanismo: o humanista era o indivíduo que traduzia e estudava os textos antigos, principalmente gregos e romanos. Foi dessa inspiração clássica que nasceu a valorização do ser humano. Uma das características desses humanistas era a não especialização. Seus conhecimentos eram abrangentes.

e) hedonismo: valorização dos prazeres sensoriais. Esta visão se opunha à idéia medieval de associar o pecado aos bens e prazeres materiais.

f) individualismo: a afirmação do artista como criador individual da obra de arte se deu no Renascimento. O artista renascentista assinava suas obras, tomando­se famoso.

g) inspiração na antiguidade clássica: os artistas renascentistas procuraram imitar a estética dos antigos gregos e romanos. O próprio termo Renascimento foi cunhado pelos contemporâneos do movimento, que pretendiam estar fazendo re­nascer aquela cultura, desaparecida durante a “Idade das Trevas” (Média).

 

3. Itália: o Berço do Renascimento

O Renascimento teve início e atingiu o seu maior brilho na Itália. Daí irradiou-se para outras partes da Europa. O pioneirismo italiano se explica por diversos fatores:

a) a vida urbana e as atividades comerciais, mesmo durante a Idade Média, sempre foram mais intensas na Itália do que no resto da Europa. Como vimos, o Renascimento está ligado à vida urbana e à burguesia. Basta lembrar que Veneza e Gênova foram duas importantes cidades portuárias italianas, ambas com uma pode­rosa classe de ricos mercadores.

b) a Itália foi o centro do Império Romano e por isso tinha mais presente a memória da cultura clássica. Como vimos, o Renascimento inspirou-se na cultura greco-romana.

c) o contato com árabes e bizantinos, por meio do comércio, deu condições para que os italianos tivessem acesso às obras clássicas preservadas por esses povos. Quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos, em 1453, vários sábios bizantinos fugiram para Itália levando manuscritos e obras de arte.

d) O grande acúmulo de riquezas obtidas no comércio com o Oriente, formou uma poderosa classe de ricos mercadores, banqueiros e poderosos senhores. Esse grupo representava um mercado para as obras de arte, estimulando a produção intelectual. Muitos pensadores, pintores, escultores e arquitetos se tomaram protegidos dessa poderosa classe. À essa prática de proteger artistas e pensadores deu-se o nome de mecenato. Entre os principais mecenas podermos destacar os papas Alexandre II, Júlio II e Leão X. Também ricos merca­dores e políticos foram importantes mecenas, como, por exemplo, a família Médici.

Já no século XIV (Trecento) surgiram as primeiras figuras do Renascimento, como, por exemplo, Giotto (na pintura), Dante Allighieri, Boccaccio e Francesco Petrarca (na literatura). No século XV (Quatrocento) a produção cultural atingiu uma grande intensidade. Mas foi no século XVI (Cinquecento) que o Renascimento atingiu o auge.

 

4. Entendendo o Renascimento através da pintura

 

 

 

1) O homem construindo o espaço

A perspectiva como a projeção em uma superfície bidimensional de um determinado fenômeno tridimensional. Para ser representada na forma de um desenho (conjunto de linhas, formas e superfícies) devem ser aplicados mecanismos gráficos estudados pela Geometria descritiva, os quais permitem uma reprodução precisa ou analítica da realidade tridimensional. A imagem é construída a partir de um único ponto fixo e imóvel. Este olho que organiza e hierarquiza os objetos plásticos. É um olhar humano sobre o mundo, um olhar laicizado, ou seja, é a perspectiva única e exclusiva do próprio homem. A valorização do olhar humano chamamos de Antropocentrismo.

 

2) O espaço racional

O espaço pictórico é um espaço racional e rigidamente construído para determinar o lugar exato do homem e dos objetos na tela. Um pouco atrás, na frente, ao lado, menor, maior, tudo para dar a sensação de volume e perspectiva, daquilo que está perto e os mais distante. Os termos técnicos são sobreposição, profundidade, ponto-de-fuga, volume, proporção etc. Para obter essa ilusão em nossa visão, utiliza-se estudos óticos, cálculos matemáticos, efeitos da luz, geometria. O uso de técnicas racionais pelos renascentistas define outra característica do período, o Racionalismo.

 

3) Apreso pelos detalhes

O homem representado é laico, único e particularizado nas suas formas e expressão mais características que difere de outros homens. Procura-se pintar o sujeito em sua máxima individuação, para que a imagem seja referência imediata do modelo original. Esse processo denota outra característica do renascimento, o Individualismo

 

4) Valorização da cultura clássica

Quando se olha uma tela renascentista tem-se a sensação de uma imitação da realidade, o que se chama de figuração mimética, em que o homem e a natureza são estudados, valorizados e idealizados. Os renascentistas não foram os primeiros a ter esse ideal, os gregos seguidos dos romanos já o fizeram, aliás estudiosos no final da Idade Média descobriram esse ideal clássico e passaram a cultivá-lo. O gosto pelo ideal clássico se propagou pelo renascimento, caracterizando o Humanismo.

 

5) Cultura materialista

Diferente da espiritualidade medieval, os renascentistas se interessaram pela matéria, da mesma forma que se importavam com a quantidade que dinheiro podia comprar. Viviam e reproduziam um mentalidade capitalista. Aqui a razão dada por Deus deveria ser usada para conhecer o mundo criado por Ele. A filosofia natural buscava a compreensão dos fenômenos (humano e natureza) ligados a matéria. Era o espírito cientifico.

 

Na tela acima, o pintor, inserido nessa cultura renascentista, retratou a materialidade dos objetos:

a) Detalhe do espelho

Muito embora todos os diferentes elementos estejam fortemente carregados de significados, este é talvez o detalhe mais importante da obra. No espelho se acham duas figuras refletidas, que não aparecem na sala, as quais representam o pintor e um jovem não identificado, testemunhas do casamento. O espelho é convexo e, ao mesmo tempo, reflete o teto e o piso; ultrapassa as paredes, como se estas fossem transparentes, e vai buscar, do lado de fora, o céu e o jardim, que só seriam visíveis a quem estivesse em frente à janela. No alto do espelho, Eyck escreveu: “Johannes van Eyck esteve aqui – 1434.” Rodeando o espelho, cenas da vida de Cristo, completando o ambiente místico. E contrariando uma vez mais a lógica, à esquerda existe um enfeite e, à direita, um espanador.

b) Detalhe das sandálias

Estamos no ano de 1434, vivendo usos e costumes da Idade Média. Aqui, as sandálias indicam uma mulher com os pés no chão, numa atitude respeitosa de humildade e submissão ao noivo. No primeiro plano, os pés da mulher não aparecem.

c) Detalhe do cão

O que faz o cão intruso, numa cerimônia de casamento, se interpondo entre os noivos e os supostos convidados? Nenhum animal é tão fiel ao dono quanto o cão. Então, segundo algumas interpretações, sua presença no quadro é um emblema de fidelidade, submissão e amor.

d) Detalhe do candelabro

O dia está claro e a sala, bem iluminada. Primeiro detalhe: o candelabro, apesar disso, se acha aceso. Segundo detalhe: nele há apenas uma vela acesa e os outros suportes se acham vazios. Para uns, a vela representa a chama nupcial que não se apaga; para outros, é o olho divino colocado sobre o casal.

e) Detalhe da câmara nupcial

A câmara nupcial, com cortinas vermelhas, evoca o ato físico do amor que, de acordo com a doutrina cristã, completa a perfeita união de um homem e uma mulher.

 

 

 

                 
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