HISTÓRIA

 

 

 

TEXTOS

VER

 

 

 

 

 

 

 

 

Crise nos EUA: causas e coincidências com 1929

Paulo de Tarso Pinheiro Machado

 

A crise financeira gerada pelas hipotecas americanas vem espalhando pânico e derrubando as Bolsas de Valores pelo mundo e até agora provocou a “evaporação” de US$ 9,1 trilhões pela desvalorização do valor das empresas negociadas nas bolsas do mundo. Apenas no Brasil, aproximadamente, US$ 190 milhões tomaram forma de “vapor”.

Por sua pujança, a economia dos EUA sempre que experimentou crises cíclicas acarretou expressivas consequências para a economia mundial e, em especial, para os países que dependem das importações americanas. Portanto, é importante compreender a dinâmica destas crises para melhor avaliar o impacto dos seus reflexos, bem como o receituário a ser prescrito.

Dessas, a primeira que teve notoriedade e repercussão mundial foi a de 1929 - Grande Depressão – cuja origem se deu ao final da primeira Guerra, onde os EUA experimentava um boom econômico através da proliferação de empresas industriais e agrícolas constituindo grandes conglomerados empresariais com capital aberto. As Bolsas de Valores passaram a registrar virtuoso movimento de oferta e demanda de ações de companhias de seguros, agrícolas, minas, grandes supermercados, bancos, etc.

Este ciclo virtuoso produziu, como efeito multiplicador, a capacidade de atingir todas as classes sociais, gerando um grande volume de negócios, expandindo a produção, a renda, o emprego e o investimento. Este ritmo provocou um elevado crescimento da produção, tanto para o mercado interno como para o mercado externo.

A consequência foi um excesso de oferta e uma incapacidade de demanda do mercado interno, aliado a uma crise europeia, que reduziu as exportações americanas. O resultado foi a queda nos preços, na renda, o desestímulo na produção e nos investimentos e no desemprego, que gerou uma grande depressão nas economias americana e mundial. O Brasil também se ressentiu fortemente deste quadro.

A solução para essa crise dos EUA surgiu do ideário de John Maynard Keynes, um dos mais célebres economistas da primeira metade do século XX, materializado, posteriormente em 1936, na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Esta obra diz que a atividade econômica enfrenta ciclos de crescimento e recessão, onde o excesso de oferta pode gerar incapacidade de absorção de demanda, havendo necessidade do investimento público para gerar bens e serviços públicos, o que denominou de produção de não-mercadorias, até que oferta e demanda retome a posição de equilíbrio.

Entre os instrumentos keynesianos, está a política fiscal através da elevação dos impostos como forma de aumentar o investimento público, a política monetária via o manejo dos juros para o controle das flutuações da moeda e do crédito, e as políticas de emprego.

A implementação do receituário keynesiano conduziu a recuperação da economia americana e mais, legou o ensinamento às economias nacionais da importância do controle pelo Estado de variáveis macroeconômicas como o equilíbrio fiscal, a taxa de juro, a moeda, etc.

O processo de globalização recente promoveu expressivas alterações na economia mundial, tais como a expansão da oferta de bens e serviços, a flutuação das taxas cambiais, a maior circulação de capitais produtivos, o crescimento das economias emergentes e, fundamentalmente, a ideia de que para conviver com este ambiente é imprescindível o equilíbrio macroeconômico.

Concomitantemente, o novo cenário global exigiu e exige cada vez mais dos países, o rigorismo no manejo macroeconômico. A crise 2007 tem como origem a negligência pelo Governo de alguns destes fundamentos, ou seja:

Em 2001 a economia americana estava equilibrada, com déficit zero. A política fiscal reduziu impostos e triplicou os gastos militares (a guerra no Iraque consumiu US$ 320 bilhões por ano) promovendo um dos maiores rombos fiscais do orçamento(US$ 379 bilhões).

Ainda em 2001, no início da era Bush, um euro era trocado por 82 centavos de dólar. Hoje, a moeda europeia já vale, praticamente, um dólar e meio levando a que a moeda americana desabasse e perdesse o reinado para a moeda europeia. Com isso, a participação dos EUA no PIB global caiu de 33% para 26% na última década.

No período 2001 a 2006, os Estados Unidos rodaram com taxas de juros praticamente negativas, o que inflou uma bolha artificial de crédito resultando na crise hipotecária de US$ 500 bilhões fragilizando fortemente o sistema bancário americano. Bancos como Citibank, Merrill Lynch e JP Morgan amargam prejuízos históricos.

Por fim, a expansão desmesurada do crédito conduziu a atual crise das hipotecas materializada pela inadimplência, abalo do crédito e da confiança dos investidores levando milhares de imóveis a leilão e uma perda bilionária.

Os reflexos deste quadro sobre a economia mundial, além dos prejuízos nas Bolsas, certamente afetarão o comércio externo: a economia americana representa 26% do PIB mundial. Quanto ao futuro, qualquer previsão ainda é prematura, mas a tendência é de que o EUA venha a experimentar um quadro de recessão, ou pior, de estagflação (recessão acompanhada de inflação alta).

Conclusivamente, é importante observar que a atual crise apresenta algumas coincidências com a crise de 1929, ambas foram motivadas por superoferta: de produção (1929) e de crédito (2001-2006). Outro aspecto é que, a exemplo da crise anterior, a atual necessitará da implementação de uma política macroeconômica de natureza keynesiana que permita recuperar a economia americana a partir de instrumentos fiscais, monetários e de natureza cambial, especialmente, para reequilibrar o balanço de pagamentos combalido pela desvalorização do dólar em relação a outras moedas. Por fim, outra grande coincidência, é a de que George Bush poderá ser comparado a Herbert Hoover, o presidente que antecedeu a Grande Depressão de 1929 como o pior de presidente americano de todos os tempos.

* Publicado na Revista Digital – PóloRS em 21/02/2008

** É economista da Pólo RS - Agência de Desenvolvimento e da Agenda 2020.

 

 

 

 

                 
7