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Imperialismo

 Ana Marques, Henrique Raposo, Sérgio Canez e Sara Vidal

 

 

1. Introdução

O presente trabalho pretende abordar a temática do Imperialismo, a partir de uma visão histórica global, mas dando um papel de destaque à vertente econômica.

Com isto não queremos marginalizar a visão mais política do movimento imperialista, pois ela também é digna de registro, mas, de fato, concluímos que o lado econômico é o mais importante. Iremos tentar provar esta idéia por um conjunto de argumentos de índole econômica, baseados na explicação marxista do tema.

Por outro lado, para além da visão eurocêntrica, tentaremos perspectivar as conseqüências do Imperialismo nos países colonizados, não nos restringindo ao mundo dito "civilizado".

 

 

2. A ANTECÂMARA DO IMPERIALISMO

Antes da ascensão do capitalismo, a vida econômica era marcada por fatores específicos que dificultavam seriamente a sua “mundialização”. Entre outros, as condições meteorológicas (que podiam afetar a produção agrícola), o equilíbrio demográfico e as guerras detinham um peso enorme na sociedade pré-capitalista, podendo originar crises econômicas, instabilidade política e precariedade social.

Com o capitalismo a situação altera-se substancialmente, rumo à uniformização econômica. Assim, para uma melhor compreensão do fenômeno do Imperialismo (1875-1914) é necessário recuar até meados do século XIX.  

Depois da última vaga revolucionária (1848) a Europa encontra a estabilidade social indispensável para a implementação definitiva do capitalismo e da sua superioridade econômica. Nesta primeira fase eufórica (1848-1870), o velho continente torna-se, irremediavelmente capitalista, através do triunfo da liberalização econômica. A liberdade de negociação financeira permite o crescimento da iniciativa privada (sobretudo na Inglaterra), a autêntica força motriz do capitalismo europeu, beneficiando da proteção passiva governamental (Laissez-Faire).

Com um crescimento econômico sem precedentes na História, a Europa industrializada inicia a caminhada triunfal sobre o restante globo. Assim, a tradicional falta de ligação entre as diferentes partes do mundo (devido à escassez de relações políticas e, essencialmente, econômicas) é quebrada pela economia capitalista européia do século passado. Os ricos «homens de negócios» europeus criam o primeiro sistema de intercâmbio econômico com algumas áreas ultramarinas [1]. Desta forma, o processo de exploração de regiões anteriormente ignoradas [2], iniciado na época, esta geneticamente ligada a uma dimensão econômica. Por outras palavras, a idéia de resgatar para a “luz da civilização” os povos atrasados tem como pano de fundo as ambições comerciais.[3]

Por conseguinte, às portas de 1875 o mundo extra-europeu não era tão desconhecido como em 1848, devido à interligação proporcionada pelas novas vias de comunicação que permitiam uma velocidade/regularidade de deslocação de pessoas e mercadorias inusitada. Os caminhos de ferro, a navegação a vapor e o telégrafo iniciaram aquilo a que hoje se chama «aldeia global». Neste aspecto o comboio assume papel de destaque, tornando-se símbolo da era industrial e do sucesso da Europa burguesa, que orgulhosamente expande a sua nova invenção para outras zonas do globo. Na periferia o comboio torna-se complemento ideal da marinha mercante. Estabelece com incrível rapidez a ligação entre as áreas produtoras de produtos primários (ex. carne do Uruguai e a lã da Austrália) com os portos marítimos, nos quais as poderosas marinhas européias embarcavam esses produtos em troca por manufaturas industriais. Deste modo, o crescimento/exportação dos caminhos de ferro [4] e o desenvolvimento da navegação a vapor [5] constituem os primeiros instrumentos europeus na fomentação da dependência econômica do ultramar.

Se os caminhos de ferro adquirem uma maior visibilidade ao transportar homens e mercadorias, o telégrafo pode ser considerado como a invenção mais espetacular da época ao possibilitar a comunicação à distância. Esta faculdade torna-se de grande utilidade para a conquista européia [6] no ponto de vista político (as potências adquirem um meio de vigia permanente das suas possessões longínquas, que facilita a administração e a movimentação de tropas no terreno).

Inevitavelmente, esta rede apertada de comunicações introduz relações diretas entre o mundo europeu e zonas remotas, tornando a interdependência da economia mundial uma inevitabilidade histórica [7] (fundação de uma economia industrial a nível global).  Assiste-se à criação de um “novo” mundo econômico, constituído por um único complexo de interligação.

No entanto, esta unidade econômica teve como conseqüência a divisão/rivalidade entre os diferentes Estados europeus. Se as movimentações isoladas de cada nação afetam direta ou indiretamente outros países, obviamente irão nascer inevitáveis conflitos de interesses entre as grandes potências. O sistema mundial do capitalismo começa a basear-se na rivalidade entre países. Esta concorrência econômica (que será acentuada na Grande Depressão) irá constituir-se como uma das principais causas para o Imperialismo posterior.

Todavia, não podemos exagerar a análise deste período para a explicação do Imperialismo, pois a «globalização» estava ainda nos primórdios e o conceito de ”economia global” num estado embrionário, sem a dimensão da era imperial[1][8]. Mas, nunca poderíamos compreender o Imperialismo sem fixar as suas raízes neste período. Entre 1848 a 1870 constituiu o balão de ensaio para as tácticas econômicas das futuras potências imperialistas.

 

 

3. A GRANDE DEPRESSÃO: RIVALIDADES, PROTECIONISMO e IMPERIALISMO

Aspectos como a perda de mercados externos, retraimento do mercado interno, a crescente concorrência teve na origem da primeira crise capitalista (1870-90). A “superprodução” causa uma grande baixa de preços, acentuada pela liberalização econômica (os pilar do primeiro momento capitalista). Nos momentos mais agudos (1873, 1882, 1884 e 1890) um pequeno rumor poderia desencadear uma situação incontrolável. Em geral a solução para estes problemas efetuava-se através da queda dos preços (que descem abaixo do limiar mínimo de lucro) e da redução da produção/salários (geradora de desemprego). Por outras palavras: caos econômico e social.

Conseqüentemente, esta derrocada [9] alerta os governantes para a necessidade de alterações no sistema capitalista. Destas modificações destaca-se o abandono do liberalismo econômico (com a exceção da Inglaterra) e da política do laissez-faire governamental (obsoleta fase à nova fase do capitalismo). A intervenção governamental torna-se essencial para a proteção da produção interna contra produtos estrangeiros. Tendo origem na Alemanha de Bismark, as tarifas aduaneiras transformam-se num lugar comum na economia mundial.

Como é visível, a Grande Depressão inaugura uma nova fase politico-econômica: destrói as bases do livre-cambismo e introduz o protecionismo econômico estatal (talvez a causa mais direta pra a emergência das políticas imperiais), motivado pelo denso clima de rivalidade entre as economias nacionais [10]. Agora não apenas as firmas concorrem entre si. Também os Estados-Nacões europeus iniciam um processo de declarada «guerra» econômica [11]. Assiste-se à politização da economia, com o sector público a tomar o controlo dos destinos da economia, pondo termo ao velho capitalismo de livre iniciativa privada [12]. A centralização governamental permite uma melhor defesa das economias nacionais, nesta nova fase onde os «vitórias» alheias significavam «derrotas» caseiras.

Assim, como direta conseqüência desta tremenda concorrência entre as economias politizadas surge o Imperialismo, apresentado como uma das soluções para os problemas da crise. É inegável a ligação entre a lógica de resposta do capitalismo à depressão com a “divisão do mundo”. A expansão territorial ultramarina é, acima de tudo, um produto das «guerras» comerciais dos grandes potentados europeus.

 

 

4. IMPERIALISMO: A DIMENSÃO ECONÔMICA

Com os fatos acima descritos chegamos à conclusão que mesmo antes da era imperial (1875-1914), a Europa, através da sua dinâmica capitalista (com origem no fenômeno genuinamente europeu: a Revolução Industrial), exercia grande influência nas restantes regiões do mundo (sobretudo nas Américas). Os Europeus conseguem escavar um tremendo fosso entre o “mundo desenvolvido” (Europa ocidental e EUA) e “mundo subdesenvolvido e atrasado”, oprimido pela pressão econômica (total domínio ocidental nas exportações e importações) e marítimo (os europeus controlam em absoluto as rotas, que se constituem em autênticos tentáculos aprisionadores das regiões subdesenvolvidas). Este poderoso “handicap” manteve-se uma constante no século XIX e XX, facilitando muitíssimo a dominação européia.

Porém, esta forte preponderância era eminentemente comercial: as tradicionais hegemonias comerciais europeu, iniciadas pelos portugueses no século XV e acentuadas desde o final do século XVIII (inicio da revolução industrial). Ora, os europeus, orientados pelas transformações econômicas já descritas (rivalidades acentuadas pela crise; protecionismo) introduzem uma novidade nas relações mundiais: o Imperialismo colonial de efetiva implementação no terreno.

A partir de 1875 as grandes potências européias seguem uma política de anexação e dominação política, que obviamente irá acentuar a já existente dominação econômica, que constitui o real motivo para o fenômeno do imperialismo. Sem margem para dúvida, é impossível retirar da explicação da “divisão do mundo” a sua dimensão econômica [13]. Logo, a “Globalização” da economia (acontecimento mais relevante do século passado), iniciada nos meados do século, atinge o seu clímax com o Imperialismo europeu do último quartel de Oitocentos. Fazendo uso da referida densa rede de transportes e comunicações [14], os europeus transformam zonas atrasadas e, anteriormente, marginalizadas em extensões da civilização branca, expulsando os nativos do controlo da sua própria terra.

Esta política imperialista européia era perpetuada devido a três fatores fundamentais de ordem econômica e comercial:

a) Em primeiro lugar, o “retalho do globo” tem uma forte motivação na procura de novos mercados. Com a depressão, gera-se uma crença generalizada de que a “superprodução” poderia ser resolvida por um aumento geral das exportações. Sendo a necessidade de mercados comum aos vários estados desenvolvidos, verifica-se a «corrida» aos territórios ultramarinos. Com a obtenção das possessões coloniais, as potências metropolitanas garantiam o monopólio comercial para a economia nacional correspondente, impedindo a intromissão estrangeira (protecionismo colonial). Esta situação vem realçar a evidência já assinalada: o “novo imperialismo” colonial é fruto de umas economias internacionais madura, baseadas na concorrência econômica e comercial de várias potências (Inglaterra, Alemanha, França, EUA, Japão, Rússia)

b) Por outro lado, o crescimento do consumo de massas nos países metropolitanos origina a “explosão” do mercado de produtos alimentares. Para satisfazer a imensa procura, os estados imperiais «especializam» várias regiões remotas (controladas por colonos brancos) para a produção de produtos alimentares a baixo custo (ex. Uruguai - carne; Argentina – trigo). De igual forma, o sector dos tradicionais produtos tropicais (café, chá, açúcar, cacau, frutos tropicais), em que o ocidente se tornara dependente, sofre um forte impulso. Por fim, importa realçar as áreas “especializadas” na produção de matérias-primas destinadas à máquina industrial européia (ex. Nova Zelândia - produtora quase exclusiva de lã). Esta “especialização”era possibilitada pelos rápidos transportes, que ao encurtarem grandemente o tempo de viagem tornavam os produtos coloniais acessíveis nos mercados centrais. Dá-se, então, a criação das “republicas das bananas”: áreas dominadas por colonos brancos e produtores de bens primários para as metrópoles européias. Transforma-se em totais dependências/sucursais da máquina imperialista, ou seja, economias-satélites, que caem na “armadilha da especialização internacional”, falhando, por completo, a industrialização. Tudo isto reflete a doutrina oficial vigente (“capitalismo colonizador”), que estabelece o caráter de complementaridade das colônias em relação à metrópole.

c) Finalmente, e talvez em conseqüência dos dois primeiros fatores (“especialização”; novos mercados), a civilização industrial avançada torna-se dependente de produtos exóticos. Isto é, o novo desenvolvimento tecnológico da segunda revolução industrial (1880) baseava-se, em grande parte, em matérias-primas provenientes de regiões remotas [15]. Face à grande procura, os europeus, em paralelo às plantações agrícolas, abrem uma rede imensa de minas no ultramar, buscando avidamente os novos produtos.

As explorações agrícolas e mineiras coloniais podem ser consideradas como os símbolos práticos do imperialismo: O poder branco explora a riqueza e a mão-de-obra locais, atingindo lucros sensacionais. Toda esta exploração era perpetuada pelos negociantes/financeiros da metrópole, que tinham no terreno os «mensageiros» e os «peões» da lógica imperial: os colonos brancos.

Em suma, o capitalismo mundial da era do império consistia num complexo jogo de rivalidades econômicas entre “economias nacionais politizadas”, que transpunham essa rivalidade para os terrenos ultramarinos anexados.

 

 

5. A DIMENSÃO POLÍTICA DO NACIONALISMO: DEBATE HISTORIOGRÁFICO

A explicação econômica do imperialismo, acima descrita, tem origem na escola marxista, sobretudo nas teorias leninistas (“Imperialismo: fase suprema do Capitalismo”, Lenine).

Obviamente, a grelha explicativa marxista é criticada pela escola revisionista, que rejeita a dimensão econômica do imperialismo. Os revisionistas (ex: René Remond, Hannah Arendt) negam a ligação entre a política imperialista do século XIX com o capitalismo em geral; recusam que as ligações econômicas do período em questão tivessem conseqüências benéficas para as potências “imperialistas” e, por conseguinte, não aceitam que a exploração das zonas atrasadas fosse essencial para o capitalismo e prejudiciais para as economias locais. Por último, defendem que o Imperialismo não provocou rivalidades definitivas entre as potências européias e, dessa forma, não detém nenhuma influência no nascimento da I Grande Guerra!

Em substituição da faceta econômica, os revisionistas introduzem explicações ideológicas, culturais e políticas. Parece-nos óbvio que esta tentativa “antiimperialista” não é sustentável, pois rejeita linearmente a explicação mais direta e incontornável: o imperialismo resulta do desenvolvimento econômico capitalista [16]. A escola não-marxista ao não encarar esta situação evidente está simplesmente a negar fatos.

  Contudo, as soluções politico-ideológicas apresentadas pelos revisionistas merecem toda a atenção. Isto porque o pilar da explicação revisionista, o nacionalismo, também terá sido importante na ascensão de políticas imperialistas nos estados europeus.

Inegavelmente, o “Principio da Nacionalidade” atinge a maturidade no último quartel do século XIX, evoluindo da fase gestativa (revoluções de 1820, 30 e 48). Transforma-se na trave-mestra da política interna e externa dos estados europeus [17]. A emergência do nacionalismo provoca a formação de governos agressivos no exterior, que tinham como objetivo fundamental o engrandecimento da Nação. Portanto, a implementação de políticas de expansão imperialista em relação a povos distantes a “atrasados” [18] foi uma inevitabilidade.

De fato, os “estados-nacões” europeus negam a condição de “Nação” a estes pequenos e subdesenvolvidos povos, restringindo o seu futuro à integração em «verdadeiras» nações. Esta gritante falta de igualdade e excesso de arbitrariedade era legitimado direta ou indiretamente pela ideologia «pseudo-superior» européia (à luz do positivismo a Europa era considerada a portadora exclusiva da civilização, destinada a prevalecer na história) e pelas teorias darwinistas (os europeus seriam os vencedores da luta pela existência, derrotando os povos inferiores) [19].

Perante esta retaguarda nacionalista, a anexação de territórios, para além do interesse real econômico, torna-se numa moda, num «status» simbólico destinado a satisfazer o ego nacionalista das grandes potências. Por exemplo, a Alemanha considerava impróprio que o seu superior poder não se encontra reflexo nas possessões ultramarinas, muito inferiores em relação às inglesas [20].  O Império era uma dimensão de grandeza política e um fator de Amor - Próprio.

Posto isto, é inegável a ligação do nacionalismo com a expansão imperialista. Mas terá a dimensão política a mesma dose de importância da dimensão econômica? Julgamos que não. O Imperialismo é acima de tudo um ramificação do crescimento capitalista do mundo europeu (Europa ocidental e EUA) [21]. Mesmo sem o “auxilio” nacionalista (que de alguma forma legitima a sua ação), os governos metropolitanos teriam dominado o restante planeta, dando continuidade à dinâmica econômica global iniciada na década de 1850 [22]

 

 

6. A SINGULARIDADE BRITÂNICA

De entre o mundo metropolitano, o imperialismo detinha maior importância na velha Inglaterra.

A sua anterior hegemonia tinha como base a capacidade de dominar os mercados internacionais e as fontes de matérias primas, através da sua incomparável marinha mercante (“…a verdadeira economia mundial”. E. Hobsbawm). Desta maneira, preservar o acesso privilegiado ao espaço não-europeu teria, necessariamente, de ser a bandeira essencial da política econômica britânica. Conscientes desta situação os governantes da Inglaterra vitoriana empreenderam uma campanha de conquistas notável, atingindo o feito sensacional de governar 25% do globo terrestre (Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Índia, Birmânia, África do Sul, etc.). Em acréscimo, se adicionarmos os países, que apesar de independentes, não passavam de meros satélites econômicos do grande “planeta”, a rainha Vitória dominava um terço da Terra!

A chave para o sucesso britânico esteve, em primeiro lugar,  na sábia exploração das possessões anteriores, sobretudo da Índia (“a pérola mais brilhante da coroa imperial”), o pilar de toda a estratégia global [23]. A política imperial inglesa tinha em grande consideração a proteção das rotas para o subcontinente. Para além do controlo absoluto do Oceano Índico (verdadeiro “lago” inglês), os britânicos controlavam a antiga rota do cabo (África do sul; parcelas da costa oriental africana), bem como as rotas mais diretas (Egito - canal do Suez; Mar Vermelho; Omã - Golfo Pérsico). Então, aquisição de territoriais africanos pode ser encarada como uma medida defensiva dos interesses orientais, que agora sofrem o “ataque” de outras potências (fim da hegemonia mundial inglesa).

A especificidade da Grã-Bretanha também se pode medir pela sua capacidade de continuar a manter posição privilegiada de parceiro econômico único de certas regiões (ex. Uruguai, Argentina, Portugal, etc.). A Inglaterra torna-se no principal importador de produtos primários, constituindo o “mercado mundial” de grande parte dos produtos alimentares produzidos noutras paragens [24]. Em troca os ingleses exportavam os seus produtos industrializados. E aqui reside a base da ligação Grã-Bretanha – Mundo Sub-Desenvolvido: o abandono da agricultura por parte dos ingleses origina a total dependência dos países “atrasados” em relação à Inglaterra.

Por fim, a terceira “coluna” inglesa foi a sua tradicional capacidade de investimento. Os “súbditos de sua Majestade” investem fortemente no seu império (ex: expansão dos caminhos de ferro), garantindo um relativo desenvolvimento das colônias e, por arrastamento, lucros avultados (capitalismo financeiro). È igualmente curioso assistir ao fato de a Grã-Bretanha ser o único investidor a nível mundial. (os investimentos franceses e germânicos não saem do velho continente. De igual forma, os Estados Unidos apenas investem no seu continente).

Por todas estas razões a Inglaterra mantinha-se fiel ao liberalismo econômico (em claro contraste com a Europa continental protecionista) e, acima de tudo, continuava no centro da economia mundial [25]. Apesar da perda da hegemonia industrial (conseqüência inevitável da globalização), os ingleses souberam manter a liderança, pois constituíam a única nação capaz de retirar o máximo partido das suas possessões coloniais. Isto é, o capitalismo industrial (Alemanha e EUA) igualou, mas não venceu o capitalismo financeiro britânico.

Em oposição ao sucesso econômico da política imperial inglesa, os resultados práticos dos restantes impérios não foram tão brilhantes. Isto porque para o capitalismo industrial germânico e norte-americano a colonização não era absolutamente necessária para o desenvolvimento. Paralelamente, o imperialismo era um modo de compensação para a inferior capacidade econômica encontrada por países menos desenvolvidos (ex. França, Itália). As novas colônias transformam-se em simples ornamentos e em pesos mortos, pois com a falta de investimento o comércio colonial não cresce em comparação com o comércio total (fracasso do colonialismo protecionista versus o triunfo do colonialismo livre inglês).   

 

 

7. CONSEQÜÊNCIAS

 

A. OS COLONIZADOS

O Mundo não-europeu (com a exceção da Japão), encontrava-se completamente indefeso face ao poderio branco. Portanto, grande parte do mundo é “aprisionado” pela força da “cobiça européia”. O “retalho da terra alheia” conduzido pelas grandes potências européias (Inglaterra, Alemanha, França, Rússia, Itália [26]) irá acarretar grandes e importantes conseqüências.

Primeiramente, importa assinalar a “queda” dos antigos impérios pré-industriais de Portugal [27] e Espanha, incapazes de resistir à máquina industrial moderna dos seus vizinhos europeus.

Na Ásia, apesar da permanência da independência dos grandes impérios (China, Japão, Turquia, Sião), os europeus consolidam grandes áreas de influência (Índia [28], Birmânia, Tibet, Pérsia – Inglaterra; Indochina - França; Indonésia – Holanda). Mesmo os povos mais conservadores abrem a sua economia à influência estrangeira (época Meiji na Japão; China concede liberdades comerciais em certas zonas [29], embora se continua a recusar a total dependência [30].)

  Perante a avalanche européia, apenas a América se manteve intacta (com a exceção do Canadá). Isto porque para além do nacionalismo independentista (1776, EUA – 1820, América Latina) estar ainda bem vivo, os Estados Unidos assumem-se como a grande potência industrial e, por arrastamento, iniciam um processo de expansão da sua esfera de influência no continente. Os europeus rendem-se à evidência de que o “novo mundo” era inacessível politicamente devido à ação protetora do gigante yankee (“A América para os americanos” [31]).

  Na ânsia pela descoberta de novas fontes de matérias primas e de novos mercado, os europeus partem à conquista de áreas desconhecidas. Desta forma, a marginalizada África e a zona do Pacífico foram o alvo preferencial do imperialismo e das disputas territoriais. Aliás, a partilha sumária de África tornou-se símbolo máximo do imperialismo. Em 1884-85 realiza-se a Conferência de Berlim, com o objetivo de fixar as condições para a hegemonia européia no continente negro. Nesta reunião os governantes dos “potentados” determinam os fundamentos para o colonialismo, consagrando o princípio da ocupação efetiva [32]. No final da discussão África fora absolutamente esquartejada pela “gula” ocidental [33]. Se a Europa da Restauração foi marcada pelo “espírito de Viena”, a Era do Império tem o seu melhor ícone nesta famosa Conferência de Berlim.

Resumindo: consuma-se a partilha do mundo por um pequeno núcleo de Estados, que assume dimensões sensacionais. Entre 1975-1914 um quarto da superfície global encontrava-se sob a alçada das potências coloniais. (ex. a Inglaterra aumenta em quatro milhões de milhas o seu território).

  Com as conseqüências econômicas [34] e geográficas debatidas, resta-nos assinalar os efeitos socioculturais da “europeização” do mundo.

Os efeitos culturais demonstraram ser os mais persistentes. Mesmo depois do fim da dominação política e econômica, conseguida após a descolonização, as manifestações culturais, resultantes do imperialismo, continuam impressos no tecido sociocultural terceiro mundista.

Esta tremenda herança cultural resultou da imitação completa dos modelos europeus (total “europeização” do globo). A “grande” civilização positivista européia impõe-se direta ou indiretamente ao mundo não-europeu, que absorve os valores/costumes (desportos, vestuário), códigos civis e penais e ideologia da organização social ocidental.

Para acentuar a aculturação, nos países sem um única língua oficial, o idioma do colonizador torna-se na língua nacional [35]. As línguas européias (inglês, francês, espanhol, português) assumem um caráter universalista.

A dominação da cultura ocidental teve como resultado imediato a desnacionalização dos quadros superiores das colônias, através da imposição de uma elite local “ocidentalizada”. Estes líderes nativos “importam”, cada vez mais, a cultura ocidental, deixando ao desprezo a sua cultura tradicional [36].

Outra grande influência cultural está na evangelização do ultramar. O ocidente impõe as duas variantes do cristianismo (catolicismo e protestantismo) ao mundo não-cristão. Apesar de não penetrar no sólido Islã [37], a religião ocidental triunfa facilmente nas populações animistas da África negra. Estamos na era clássica do missionismo, que submete os povos “inferiores” à “verdadeira religião de Deus. Simultaneamente, a Europa “exporta” a separação entre o direito civil e direito canônico. Dá-se, então, a secularização da sociedade mundial (as elites locais desligam-se das crenças tradicionais; neste aspecto apenas o mundo islâmico se mantém fiel aos seus princípios ancestrais).

Como se pode verificar, a influência exerce-se em sentido único, pois a Europa pouco ou nada recebeu (de forma direta [38]) das culturas conquistadas. Afinal, não houve o intercâmbio cultural tantas vezes ventilado. Esta ausência de reciprocidade era inevitável face à arrogância dos colonizadores.

 

B. OS COLONIZADORES

Também no ocidente os efeitos socioculturais mostravam a sua durabilidade, estando, ainda hoje, infiltrados na sociedade branca.

A grande novidade sociocultural do século XIX na sociedade européias foi, sem dúvida, a emergência da xenofobia/racismo. De fato, os povos não-europeus [39] e suas sociedades passam a ser considerado inferior, atrasado e indesejado. Os valores destas culturas eram irrelevantes e vítimas do desprezo/opressão da sociedade positivista [40]. É o fim do mito do “Bom Selvagem” (nativo não corrompido pela sociedade).

Esta idéia de superioridade branca está umbilicalmente ligada ao Imperialismo. Os europeus consideravam-se os guardiões da “luz” da civilização, baseando-se nas teorias Darwinistas [41]. Portanto, à usual tríade do orgulho “branco” (ciência, tecnologia e industria) se junta um novo elemento de glorificação: as colônias e a submissão das raças inferiores (dominação mundial da raça branca). Por outro lado, o racismo percorria na vertical toda a sociedade burguesa. Para além de “contaminar” a alta burguesia, a xenofobia era genuinamente popular, sobretudo na crescente classe média (veículo privilegiado do emergente nacionalismo). Nas colônias o mais simples funcionário branco humilhava os locais, visto que não eram considerados totalmente humanos ou merecedores da cidadania [42]. A sistematização do preconceito racial [43] torna-se numa realidade, bem como a formação de facções racistas por toda a Europa [44].

Os sentimentos racistas são avivados pela emigração dos povos inferiores. As remessas constantes de estrangeiros agravavam os problemas das cidades metropolitanas (vagabundagem, criminalidade, etc.), sendo, por isso, encaradas como um “perigo” para a sociedade burguesa dominada pela classe média [45]. É perfeitamente visível a clara ligação entre sentimentos nacionalistas – racismo – classe média, que envereda pelo caminho da direita política. Os “chamamentos” da extrema direita detinham um enorme eco junto desta comunidade (comerciantes, lojistas, artesãos, funcionários públicos, etc.), erguendo-a contra o inimigo declarado: o “estrangeiro” (elemento estranho simbolizador da possível ruptura do “status quo”).

Com a resposta positiva da população em geral [46], a ala direita nacionalista toma a papel de líder do racismo, efetuado atitudes agressivas em relação a judeus e estrangeiros. Assim, a extrema direita do século XIX (antecessores do fascismo) constitui-se num movimento chauvinista, fundamentado na idealização da superioridade e expansão nacional. Esta mensagem (base do racismo em geral), como já referimos, era bem aceite pelo cidadão comum, ao acreditar piamente na superioridade natural do seu povo sobre os estrangeiros (os verdadeiros “escapes sociais”). Por exemplo, é impensável, que os soldados da I guerra mundial não detivessem um “certo egoísmo nacional incondicional” (E. Hobsbawm).

Em resumo, a era do império foi a era clássica do racismo [47]. A solidificação deste sentimento será talvez o efeito mais marcante do imperialismo. Isto porque, embora alguns sectores da sociedade atual continuem a ignorar o problema, o racismo continua bem vivo no tecido sociocultural do mundo contemporâneo, 125 anos depois do inicio da era imperial!

 

 

8. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Como é obvio e inegável, as rivalidades politico-econômica, resultantes do Imperialismo, tiveram na base do militarismo e da I Grande Guerra.

O conflito global apresentava-se como inevitável face à crescente tensão entre os gigantes europeus (potências centrais: Alemanha, Austro-Húngaro versus "Tríplice Entente": Inglaterra, França e Rússia). A preocupação era comum ao público anônimo [48] e aos governos, que já em 1890 promovem o Congresso Mundial da Paz (repetido vinte vezes antes de 1914!).

De fato, o Imperialismo torna a guerra numa inevitabilidade histórica. Em primeiro lugar porque o jogo político-estratégico era agora disputado num espaço mundial imperial, que a todo o custo as potências desejavam manter.

Nas zonas de conquista ultramarina, a política das grandes potências originava óbvias confrontações. Mas, provavelmente, a maior causa para a I Guerra terá sido a seguinte: a competição econômica imperial à escala global. O desenvolvimento capitalista conduz o mundo até às rivalidades/ expansão imperialista e, conseqüentemente, ao conflito armado de 1814 - 1918. A guerra passa a ser um mero reflexo das políticas econômicas das nações. Os políticos decidiam em função dos interesses econômicos (fusão entre Política e Economia).

 

 

9. CONCLUSÃO

A partir de 1875 intensifica-se o processo de expansão imperial, que se estenderia até ao início do século XX. Erradicando-se desde os países europeus industrializados, especialmente de Inglaterra, esse processo levou à partilha do continente africano e asiático, bem como a zona do Pacífico. Na mesma época, os EUA e o Japão exercem atividades imperialistas nas suas zonas de influência.

Estas políticas imperialistas refletiam a transformação do Capitalismo numa política monopolistas / protecionistas, que utiliza toda a estrutura nacional para conquistar e anexar as áreas coloniais (início da centralização estatal da Economia; fim do laissez-faire). Este fato originou rivalidades entre as potências pela divisão de mercados que culminam na I Guerra Mundial (1914).

O Neo-Colonialismo vigente estabelece a necessidade de novas matérias-primas e de novos mercados para a crescente produção industrial, pois os "potentados" requeriam bases estrangeiras (mercados, fontes de matérias-primas), visando a segurança do comércio nacional.

A par da explicação econômica assente na escola marxista, existe igualmente a dimensão política do Imperialismo, isto é, o Nacionalismo. A Escola Revisionista, em oposição às idéias leninistas, introduz uma explicação não econômica: fatores de ordem politico-cultural. Para estes historiadores, o princípio da nacionalidade e o sentimento de supremacia européia foram as causas para as políticas imperialistas.

Quaisquer que sejam as suas causas, o Imperialismo originou grandes e duradouras conseqüências, quer no mundo europeu, quer no "3º mundo". Embora os efeitos econômicos (total dependência versus total supremacia) que ainda hoje se verificam, detenham grande importância, foram os fatores culturais que causaram uns maiores impactos, que ainda hoje se faz sentir. Esta situação é comprovada por realidades bem concretas, como a assimilação lingüística dos povos colonizados (tome-se como exemplo a Common Wealth e a Comunidade dos Países Lusófonos) e pelo racismo chauvinista que abunda nas sociedades colonizadoras.

 

 

10. BIBLIOGRAFIA

HOBSBAWN, Eric J., A Era do Império, 1ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1990, 477 p.

HOBSBAWN, Eric J., A Era do Capital, 2ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1988, 438 p.

BEAUD, Michelle, A História do Capitalismo, Teorema

MAZARNÉ, Charles, Os burgueses à conquista do mundo, Editorial Cosmos

RODRIGUES, António Simões, História Comparada, 1ª edição, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, 654 p.

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RÉMOND, René, Introdução à História do nosso tempo, 1ª edição, Gradiva, Setembro de 1994, 460 p.


 

 

11. NOTAS

[1]  O volume de trocas entre a Europa e o resto do mundo aumenta seis vezes entre 1838 e 1870.

[2] Ex: as explorações de Livingstone e Staney em África na década de 1860.

[3] “Vestir a imoralidade da nudez selvagem com calças e camisas”, E. Hobsbawm.

[4] Entre 1840 e 1880 a rede de linhas cresce de 5 mil para 230 mil milhas mundiais.

[5] A marinha a vapor inglesa cresce 1600% no mesmo periodo.

[6] Uma mensagem transmitida de Londres demorava apenas 5 minutos a chegar à India!

[7] Ex: A corrida ao ouro californiano (1849-82) irá provocar um conjunto de acontecimentos em diferentes zonas. 1º -  estimula emigração massiça das metrópoles europeias; 2º - provoca a primeira migração voluntária de um povo oriental para uma sociedade ocidental (chineses 1844-82); 3º - propicia a fundação de uma verdadeira rede comercial nas costas do Pacífico, intensificando as trocas comerciais entre a Califórnia e a América Latina.

[8] Convém não esquecer que, apesar de várias expedições, a África e grande parte da Ásia, América Latina e da própria Europa continuavam marginalizadas pela minoria «priveligiada» (Inglaterra, Alemanha, França, E.U.A., Bélgica).

[9] A “fufocação” dos sectores industriais da primeira geração, acentuada pela concorrência intercapitalista livre.

[10] De Facto, a era industrial deixara de ser monocentrica, pois regista-se o fim da hegemonia inglesa (na produção mundial E.U.A. e a Alemanha assumem o protagonismo: E.U.A. 46%; Alemanha 24%; Inglaterra 20%; França 11%). A era do Império transforma o final do século XIX numa época de clara confrotação (ex. capitalismo financeiro inglês vs capitalismo industrial alemão).

[11] Espírito da época: “A política do capital financeiro persegue uma tripla finalidade: primeiro a criação de um território econômico tão vasto quanto possível; segundo, a defesa deste território contra a concorrência externa através de barreiras alfandegárias e, em seguida, a sua transformação em campo de exploração para o monopólio do país”, Helferding.

[12] Fim do mito da economia autónoma e autocorrectora, sem assistência governamental.

[13] “O imperialismo é a fase suprema do capitalismo”, Lenine.

[14] Entre 1870  e 1914 as linhas férras mundiais crescem de 200 mil para 1 milhão de milhas.

[15] Motor de explosão necessitava da borracha tropical (Amazonas e Congo) e de petróleo (o Médio Oriente torna-se em palco de disputas diplomáticas); a nova fonte de energia, a electricidade, estava dependente do cobre sul americano e da África do Sul; as novas ligas metálicas (ex. aluminio) dependiam de metais não-ferrosos importados da Ásia; Em acrescimo: a eterna busca de metais preciosos (a África do Sul transforma-se no centro mundial de produção de ouro e diamantes).

[16] Provavelmente o Imperialismo teria emergido sem a infuência politica do Nacionalismo.

[17] Época de criação dos “Estados-Nação”; “O Estado faz a Nação…”, E. Hobsbawm.

[18] “…conquistar…submeter o «estrangeiro»”, E. Hobsbawm.

[19] Os europeus consideravam a sua civilização universal e assumem a "obrigação" ("fardo do homem branco") de elevar os outros povos ao mesmo nível civilazacional.

[20] Pan-Germanismo: “…lembrai-vos de que somos a vanguarda da Cristandade…e enterrai as vossas baionetas em todos esses odiosos infiéis…Levai-os a compreender o que significa a nossa civilização ocidental … e no caminho se puderes aporerar-vos de um pouco de terra não deixeis que qualquer francês ou russo vos prive dela”, imperador alemão em 1900.

[21] Mais tarde, depois da solidificação da época Meiji, o Japão torna-se uma potência imperialista (Corea, Mongólia, Manchúria), constituindo-se como único país não-branco a realizar tal feito. 

[22] Porém, é importante analisar o nacionalismo de outro ponto de vista:  sem a influência dos sentimentos nacionalistas, o imperialismo não teria as consequências socio-culturais nefastas (exemplo máximo: racismo), como veremos seguidamente.

[23] 60% das exportações da industria algodoeira tinham como mercado a Índia.

[24] Ex: em 1880 comprava metade da produção mundial de trigo e carne.

[25] Com base na marinha mercante (superior ao conjunto de todas as outras marinhas europeias) e na dependência da economia mundial em relação ao seu capital.

[26] A Itália revela-se uma potência colonial fracassada ao perder o conflito armado (1895) com a sua pseudo-colonial: Etiópia.

[27] O império português não se desestruturou como o Espanhol. Apesar de perder importância a nivel mundial, o império lusitano revelou-se o mais resistente (em África até 1975; na Ásia até 1999). Esta situação apresenta-se como um tremendo paradoxo: como é que Portugal, no momento mais fraco da sua longa História, conseguiu manter e, inclusíve, aumentar em 300 mil milhas as suas possessões. Quais as razões que explicam a sobrevivência de um pequeno e enfraquecido povo no recinto de luta dos “gigantes”? Em primeiro lugar, as potências modernas, devido a rivalidades e conflitos de interesses, podiam não ter chegado a uma plataforma de entendimento para a divisão dos territórios lusófonos. A tradicional aliança inglesa não terá tido grande relevância neste aspecto, pois os ingleses sempre desprezaram os interesses portuguses (ex. os humilhantes acordos comerciais posteriores à, também humilhante, abertura dos portos brasileiros em 1807/8; o contexto do Mapa Cor-de-Rosa, que exemplifica perfeitamente a política imperialista vitoriana). Paralelamente, podemos explicar a manutenção imperial portuguesa pela forma, tipicamente portuguesa, de «colonialismo suave». Como qualquer forma de domínio não é isenta de uma certa dose de tirania, mas em comparação com a brutalidade imperialista espanhola ou inglesa, poder ser considerado como uma dominação pacífica (reflexo do típico colonialismo lusitano: controlo das rotas matitimas, sem efectiva fixação no interior dos territórios). Esta poderá ser a causa para a manutenção de possessões ultramarinas até as portas do século XXI. Por alguma razão, E. Hobsbawm denomina a época de dominio europeu (do século XV ao Século XIX) a era “Vasco da Gama”. 

[28] A India, apesar da sua grande dimensão, é facilmente controlada pelos ingleses devido à enorme divisão politica (inúmeros principados rivais), social (castas) e religiosa (ruptura entre a maioria Hindu e a população muçulmana, que depois da independência irá dividir o antigo território na União Indiana e o Paquistão muçulmano).

[29] A Inglaterra, com o tratado Zhifu (1876), consegue o acesso a cinco portos comerciais.

[30] Mas não será uma forma de imperialismo, o tráfico de ópio implementado pelos ingleses na China ocidental ? É uma forma de domínio diferente e súbtil, mas, certamente; forte e provocador de acentuada “dependência”. 

[31] Teoria Monroe: hostilidade em relação a qualquer tentativa de colonialismo europeu; apenas os E.U.A. detinham o direito de interfir no continente americano.

[32] Os territórios ultramarinos pertenciam aos países que dispusessem de efectica capacidade para uma verdadeira anexação.

[33] França - Senegal, Guiné, Costa do Marfim, Congo Francês, Madagáscar; Inglaterra – África do Sul, Gâmbia, Serra Leoa, Nigéria, Botsuana. Rodésia, Uganda, Quénia; Alemanha – Camarões, Togo, Namíbia, Tanzânia; Bélgica – Congo; Portugal – Moçambique e Angola. Em 1902 apenas a Libéria realizava a proeza de manter a indepedência.

[34] Resumo: o impacto econômico do ocidente é gigantesco e, extremamente, negativo para a periferia. Como já vimos, a relação metropóle-colónia baseava-se numa profunda desigualdade. A Europa cria uma “teia de aranha” (René Remond) com a qual domina o mundo. (ex: virtualmente todas as exportações/importações de África tinha rótulo europeu.

[35] Daqui resulta a designação de países anglófonos, francófonos, lusófonos, etc . (ex: Na Índia o inglês sobrepõem-se a 180 dialectos locais.

[36] As elites locais aceitam a submissão cultural pois esta seria a única saída para a sobrevivência das suas regiões. Todavia, a submissão tem uma outra face: permite a formação do estofo ideológico (ideais liberais da igualdade e liberdade apreendidos no ocidentes) para a oposição à ocidentalização (ex: Gandhi, advogado instruido em Inglaterra). Desta forma, a era do império criou as condições para a formação de dirigentes locais anti-imperialistas.

[37] As zonas muçulmanas resistem à cristianização, mas adoptam certas trivialidades europeias, como por exemplo o desporto (ex: o Paquistão é ainda hoje a maior potência do Críquete; a Nova Zelândia detem a melhor selecção de Rawby)

[38] Indirectamente, o imperialismo originou o racismo como veremos de seguida.

[39] Dos povos não-europeus somente os japoneses e otomanos inspiram respeito junto dos europeus, pois eram capazes de bater o seu poderio militar (ex: vitória japonesa na guerra com a Rússia pela possse da Coreia em 1905)

[40] Mesmo manifestações, aparentemente, ingénuas como a literatura de aventuras (Joseph Conrad) e as exposições coloniais (autênticos zoológicos humanos) não detinham nenhum objectivo documental/cultural. A sua finalidade era outra: mostrar a superioridade da”civilização” sobre os “primitivos”.

[41] Teoria da evolução das espécies: apenas os mais fortes sobrevivem, ou seja, os ocidentais julgavam-se os vencedores da luta entre espécies, derrotando os povos atrasados.

[42] Mesmo os membros das elites “ocidentalizadas” não era poderiam tornar-se cidadãos de pleno direito da nação colonizadora. Os arrogantes ocidentais jamais considerariam um “homem de pele escura” como um ser de igual condição.

[43] Termos como “nativo” ou “preto” adquirem a actual conotação negativa.

[44] Mesmo na zona “branca” nasce o anti-semitismo, que visava o judeu-capitalista, adversário econômico da classe média tradicional.

[45] A xenofobia na classe operária não atinge os níveis burgueses. Contudo, é a sua acção racista que exclui os estrangeiros do mercado de trabalho.

[46] Também uma consequência do contexo internacional: até 1870/75 apenas a Grã-Bretanha poderia ser considerada uma grande potência. Mas, após o inicio da Grande Depressão e das políticas proteccionistas nascem novas potências. Um conflito generalizado torna-se bastante provável. Neste clima de hostilidade o nacionalismo da direita ganha terreno junto da população receosa dos avanços dos países rivais.

[47] “A colonização é a força expansiva dum povo, é a sua potência de reprodução .. é a submissão do universo ou de uma vasta parcela à sua língua, às suas ideias e às suas leis”, Stuart Mill.

[48] Nietzche profetiza uma guerra que "diria sim  a barbarismo do animal selvagem que está dentro de nós".

 

 

 

 

                 
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