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Os legados imperiais

Paulo Marins

 

Pode-se dizer que o fim da condição colonial do Brasil veio aos poucos. Em 1808 chega a família real portuguesa ao Brasil, fugindo das tropas napoleônicas que invadiam Portugal e, com isso, a estrutura metropolitana também se transferira para a América. Em 1815 o Brasil foi elevado à condição de Reino Unido a Portugal e ao Algarves (o sul de Portugal). Finalmente, em 1822, são rompidos os últimos laços com a velha metrópole em virtude da Independência. O novo país vai não apenas redimensionar suas relações políticas com a Europa, mas também aquelas culturais. O vasto impacto dos costumes culturais portugueses vai começar a ceder lugar a referências inglesas e francesas. A própria organização do capitalismo industrial vai pouco a pouco inserir a antiga colônia nos fluxos do consumo de objetos industrializados, aproximando-a de outras formas das referências culturais europeias, cada vez menos portuguesas. O patrimônio cultural dos diferentes brasileiros, portanto, redimensiona-se.

A própria instalação da Corte portuguesa no Rio de Janeiro desencadeou transformações culturais acentuadas. A primeira grande biblioteca pública foi formada a partir das coleções reais de livros trazidas de Portugal, dando origem à atual Biblioteca Nacional, e o primeiro museu também foi criado por D. João, o germe do atual Museu Nacional, ambos localizados no Rio de Janeiro.

A chamada “Abertura dos portos às nações amigas”, decretada já na chegada do príncipe-regente D. João em solo brasileiro, permitiu que os antes caríssimos artefatos manufaturados ou industrializados vindos da Inglaterra, obrigados às escalas e aos impostos em Portugal, fossem tornando-se mais acessíveis. Tecidos, vidros para janelas, grades de ferro para sacadas e portões são alguns dos itens britânicos que passaram a integrar a vida quotidiana de maiores parcelas de brasileiros.

A presença de numerosos contingentes de comerciantes ingleses no Brasil a partir de 1808 foi também impactando as formas de morar costumeiras em nossas cidades e vilas. Muitos britânicos preferiam montar suas residências nos arrabaldes, dando origem a bairros residenciais afastados das áreas centrais do Recife, de Salvador ou do Rio de Janeiro. O costume de construir junto ao alinhamento da rua foi também cedendo espaço para as casas com recuos, não apenas frontais, mas também laterais. Nesses recuos, os jardins passaram a ser cultivados com esmero, cercando as grandes residências, e mesmo as medianas, de vegetação domesticada. Os muros de taipa ou de adobe foram também sendo contrastados com extensos gradis de ferro, que mostravam as vivendas de gosto moderno aos transeuntes.

O gosto pela vida social nos salões foi sendo igualmente expandido junto às elites, no que aliás colaboravam não apenas os costumes burgueses dos comerciantes estrangeiros como a própria necessidade de contatos sociais e políticos ativados pela presença da Corte real e depois imperial no Rio de Janeiro. Os móveis maneiristas, barrocos e rococós, feitos de jacarandá, vão cedendo espaço a um mobiliário mais leve, inspirado no Neoclassicismo francês.

Traços culturais franceses passam a integrar a vida de muitos brasileiros já a partir dos tempos de D. João e mais ainda durante o Império. Em 1816, chegou ao Brasil a chamada “Missão artística francesa”, composta por artistas neoclássicos que perderam seus postos na França com a queda de Napoleão e de sua Corte, de quem eram protegidos. Os nomes dos pintores Nicolas-Antoine Taunay e Félix-Émile Taunay, do escultor Auguste-Marie Taunay, do aquarelista e pintor Jean-Baptiste Debret e do arquiteto Auguste Grandjean de Montigny são lembrados em todos os estudos relevantes sobre as artes no Brasil durante o século XIX, na medida em que lançaram as bases da Imperial Academia de Belas Artes, localizada no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, são edifícios neoclássicos o Palácio de São Cristóvão (na Quinta da Boa Vista), a Santa Casa de Misericórdia (na rua de Santa Luzia), o Imperial Hospício da Praia Vermelha (atual reitoria da UFRJ, na Urca), a Casa da Moeda (no Campo e Santana), a Matriz da Glória (no largo do Catete), bem como Palácio do Itamaraty (na av. Marechal Floriano), construído por particulares. Construções de camadas médias e populares foram se apropriando de fragmentos dessas construções monumentais, recriando o Neoclassicismo com soluções mais simples.

O sucesso do estilo neoclássico na Corte fez com que as províncias imperiais desejassem seguir os ditames da Academia carioca. O Hospital Santa Isabel e o Mercado Modelo, antiga Alfândega, são exemplos de arquitetura neoclássica em Salvador, bem como numerosos sobrados e casas térreas espalhados pelos bairros da capital baiana. Os teatros da Paz (Belém), Arthur Azevedo (São Luís), Santa Isabel e Apolo (Recife), e ainda o São Pedro (Porto Alegre) são todos neoclássicos.

A antiga Assembleia Provincial do Ceará acolheu também as características neoclássicas vindas da Corte, assim como a estação de estrada de ferro de Fortaleza, que associava assim modernidade e apelo ao passado. São Luís viu muitos de seus prédios neoclássicos serem revestidos de azulejos industrializados azuis e brancos o que ganharia grande difusão nas cidades úmidas do litoral brasileiro. Petrópolis, o refúgio de veraneio da Corte imperial, guarda igualmente muitas construções neoclássicas, cujo maior exemplo é o próprio Palácio Imperial, hoje abrigando um museu dedicado ao Segundo Reinado e aberto à visitação pública.

As fazendas de café do século XIX formam outro conjunto importante de construções neoclássicas que lograram atravessar o século seguinte. Percorrer as áreas rurais do Vale do Paraíba ou da região paulista de Campinas é defrontar-se com solares que recorriam aos elementos decorativos ou pelo menos à simetria das construções eruditas da Corte para vincular-se ao Neoclassicismo. Paralelamente às novidades plásticas, essas fazendas caracterizaram-se também por peculiaridades técnicas, como os terreiros de secagem de café, as tulhas para beneficiamento e guarda dos grãos do cafeeiro, sendo que muitas delas já utilizavam máquinas inglesas para o processamento.

São exemplos relevantes de fazendas de café a Secretário e São Fernando (ambas em Vassouras), Veneza (Conservatória), Paraíso (Rio das Flores), Chacrinha (Valença), Gavião (Cantagalo) e Castelo (Resende / foto), todas fluminenses, bem como as paulistas Resgate (Bananal), Restauração (Queluz), Boa Vista (Cruzeiro), Engenho d’Água (Guaratinguetá), Fortaleza (Taubaté), Serrote (Santa Branca), Três Pedras e Sete Quedas (Campinas), Morro Azul (Iracemápolis) e Pinhal (São Carlos), entre muitas outras. Os sobrados urbanos de Vassouras, Bananal e São Luís do Paraitinga (SP) são outros exemplos importantes da apropriação pelas elites cafeicultoras locais dos padrões arquitetônicos da Corte imperial.

Nos interiores de muitas moradas neoclássicas fazendeiras, os salões e quartos abrigavam os milhares de objetos de luxo produzidos na Europa e consumidos avidamente pelos fazendeiros enriquecidos pelo café ou pelo tráfico de escravos, ainda mais rendoso. Da França, vinham os vestidos e chapéus femininos, relógios de ouro, os faqueiros Christofle, as porcelanas de Limoges (muitas com os monogramas de fazendeiros ou brasões dos “barões do café”), assim como os cristais Baccarat, sendo que esses últimos foram de tal escala adotados pelas elites imperiais que o Brasil detém hoje a maior quantidade desses cristais fora do território francês. Da Alemanha, peças de precisão e fundições. Da Áustria, os móveis Thonet, de madeira recurvada e com assentos de palhinha. Da Inglaterra, quase todo o resto...

Ainda marcadas pela plástica neoclássica, as aquarelas e gravuras realizadas por Debret, integrante da Missão de 1816, são um importante patrimônio oitocentista. Os costumes urbanos, as moradas, os ofícios dos escravos, a vida das ruas foram intensamente representados, sendo que muitas aquarelas ganharam versão gravada na vasta publicação Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, publicada pelo artista na França em 1836. Muitos outros estrangeiros moraram ou viajaram pelo Brasil durante todo o século XIX, deixando muitas representações que, confrontadas entre si, permitem uma interpretação mais precisa dos costumes, evitando-se as percepções mais preconceituosas ou pouco sensíveis.

Os britânicos Richard Bate, Charles Landseer, Henry Chamberlain, William Burchell e William Smyth, o austríaco Thomas Ender, o francês Hercules Florence, os germânicos Johann-Moritz Rugendas e Eduard Hildebrandt, além do dinamarquês Paul Harro-Harring, estão entre os mais importantes artistas estrangeiros atentos à intenção de documentar costumes e a paisagem urbana de diferentes localidades do Brasil. Suas diferentes procedências geográficas atestam a importância dispensada ao Brasil pelas missões científicas vindas da Europa, das quais vários dos artistas mencionados fazem parte.

Um outro tipo de representação visual foi muito praticada no Brasil: as atualmente chamadas fotografias. Pesquisas recentes demonstraram que os processos de reprodução fotográfica foram alcançados no Brasil simultaneamente à Europa, na então província de São Paulo, pelo francês Hercules Florence, já referido acima. A divulgação, no entanto, só se deu a partir da chegada de máquinas vindas da Europa. Ambrótipos, ferrótipos, melanótipos e daguerreótipos foram formas pioneiras de retratar mecanicamente pessoas e paisagens, até que os métodos mais usuais, com negativos, se estabelecem a partir de meados do século XIX. O próprio imperador Pedro II foi um entusiasta dos processos fotográficos, formando uma imensa coleção hoje localizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

A fotografia representou uma verdadeira revolução. As pinturas de paisagem, embora coloridas, passaram a sofrer concorrência indireta das fotografias, que se não roubavam clientes das telas, iam pouco a pouco limitando o campo de novos consumidores. Já os caros retratos a óleo, pastel ou aquarela sofreram concorrência mais incisiva, pois podiam ser substituídos por um processo mais barato, rápido e que podia ser reproduzido para presentear.

O acesso à fotografia e ao hábito de se retratar vulgarizou-se tanto que no ateliê do fotógrafo Militão de Azevedo, ativo na capital paulista na segunda metade do século XIX, passaram dezenas de escravos. Solicitadas a partir de suas economias ou mesmo encomendadas pelos senhores, o fato é que as lentes fotográficas retrataram aqueles que antes dificilmente legariam a representação de sua face ao futuro. Turbantes africanos, marcas e quelóides tribais nos rostos, panos da costa aparecem nas fotos, permitindo até a investigação das origens africanas de muitos homens e mulheres negros. Babás aparecem também junto a seus filhos de leite, documentando as afeições que se cruzavam com as tensões da própria escravidão. Artistas de palco, artistas de circo, populares diversos, todos eles puderam se fazer representar e para conhecê-los basta visitar o Museu Paulista, apelidado de Museu do Ipiranga, que recebeu toda a coleção particular do fotógrafo, incluindo os catálogos gerais com todos os retratos realizados por Militão, mediante doação.

A Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, e mais recentemente o Instituto Moreira Salles, em sua unidade do Rio de Janeiro, guardam grandes coleções de fotografias dos séculos XIX e XX, legados esses que são um patrimônio cada vez mais coletivo, tanto pela intensificação de doadores, como pelos conjuntos documentarem milhares de localidades e de habitantes do Brasil.

Os processos mecânicos de reprodução da imagem encontram também um paralelo textual durante o Império. Extintas as determinações vigentes nos tempos coloniais que impediam a existência de imprensas no Brasil, houve uma gigantesca expansão dos jornais e da literatura ao longo do século XIX. A melhoria dos processos de fatura do papel a partir da celulose permitiu igualmente o barateamento da matéria-prima das edições, aumentando ainda mais o número de publicações. Novos leitores surgiam também da lenta expansão das escolas públicas. Escritores de romances, como José de Alencar, tinham nas páginas dos jornais a primeira publicação de suas obras, por capítulos, antes de serem condensados em volumes definitivos.

As tensões da vida urbana, os crimes, as feiras, as fugas de escravos, os embates entre políticos, as ofertas comerciais, os bailes e recepções sociais, o sucesso das valsinhas brasileiras e das valsas austríacas, o movimento abolicionista, o crescimento republicano, todos esses são aspectos abordados nas páginas dos jornais brasileiros do período monárquico, prenunciando em muitas de suas páginas as grandes transformações sociais, urbanas e rurais que os brasileiros viveriam a partir queda do fim da escravidão, da queda da família imperial e da aurora republicana.